Ficha tcnica:
Ttulo da obra: Borboleta - livro 1 da srie rfs
Ttulo original: Butterfly
Autor: V. C. Andrews
Srie: rfs
Gnero: Romance
Editora: Bertrand Brasil
Digitalizao: Silvana Baierl
Reviso: Marcilene Chaves
Numerao de pginas: cabealho

Sinopse

Ela era a resposta para todos os sonhos de seus novos pais... mas to frgil quanto uma borboleta...
Ao que se lembrava, seu mundo sempre fora o orfanato, com suas brincadeiras cruis e o desejo silencioso do dia em que teria a prpria famlia.
janet mal conseguiu acreditar quando Sanford e Celine Delorice a escolheram como filha, afastando-a de seu trgico passado.
Seu novo pai  bonito e gentil. Celine, embora confinada a uma cadeira de rodas,  a mulher mais linda e elegante que Janet j conheceu.
Logo Janet aprende sem dificuldade as rotinas da enorme propriedade, inclusive do estdio em que toma aulas de bal com uma professora rigorosa. Celine est convencida 
de que um dia Janet ir deslumbrar audincias como bailarina, como ela prpria fazia antes de seu acidente automobilstico. Ansiosa em proporcionar alegria a seus 
pais, Janet procura agrad-los com todo empenho. Mas dana sobre uma frgil teia de felicidade, jamais sabendo o que poder acontecer se um filamento romper...
V. C. Andrews nasceu na Virgnia, em 1924. Na infncia era apaixonada por bal, msica clssica, xadrez e astrologia. No final da adolescncia, levou um tombo de 
uma escada e nunca mais voltou a andar.
Presa a uma cadeira de rodas, V. C. Andrews decidiu tornar-se escritora, e seu primeiro livro publicado - Flores no Sto - entrou imediatamente para a lista dos 
best-sellers.
A partir de ento, tornou-se uma das escritoras de maior sucesso nos Estados Unidos, vindo a falecer em 1986.
Capa - Silvana Mattievich

V. C. ANDREWS
Vol. 1 - Srie rfs
2 EDIO
Traduo de A.B. Pinheiro de Lemos
Bertrand BRASIL
Copyright (c) 1998 by the Virgnia C. Andrews Trust and The Vanda Partnership
Publicado mediante contrato com editor original, Poquet Books, New York
Depois da morte de Virgnia Andrews, a famlia Andrews passou a trabalhar com uma escritora escolhida com o maior cuidado, a fim de organizar e completar suas histrias, 
alm de criar romances adicionais, como este, inspirado por seu gnio na fico.
Este livro  uma obra de fico. Nomes, personagens, lugares e incidentes so produtos da imaginao da autora ou usados de maneira fictcia. Qualquer semelhana 
com eventos reais, como locais ou pessoas, vivas ou mortas,  mera coincidncia.
Ttulo original: Butterfly
Capa: SilvanaMattievich, usando ilustrao de LisaFalkenstern
Editorao: Art Line
1999
Impresso no Brasil/Printed in Brazil
CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
Andrews, V. C. (Virgnia C.)
Borboleta V. C. Andrews; traduo A. B. Pinheiro de Lemos. -
2 edio - Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 1999.
160p. - (Srie rfs; 1)
Traduo de: Butterfly ISBN 85-286-0715-1
1. Romance norte-americano. I. Lemos, A. B. Pinheiro de (Alfredo Barcellos Pinheiro de), 1938- D. Ttulo, m. Srie.
A581b
2 ed.
99-0786
CDD - 813 CDU-820(73)-2
Todos os direitos reservados pela BCD UNIO DE EDITORAS S.A. Av. Rio Branco, 99 - 20 andar - Centro
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No  permitida a reproduo total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem a prvia autorizao por escrito da Editora.
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Prlogo

Eu estava sozinha na sala da sra. McGuire, aguardando o encontro com o casal que pedira para me ver. Sentar "direito" na cadeira de encosto reto, ao lado da mesa 
da sra. McGuire, fazia minhas costas doerem, mas eu sabia por experincias passadas que tinha de mostrar o meu melhor comportamento. A sra. McGuire era diretora 
do orfanato e ficava furiosa quando tnhamos uma postura relaxada ou fazamos qualquer coisa "imprpria" na presena de visitas.
- Postura, postura! - gritava ela, quando passava por ns no refeitrio.
Todas assumamos posio de sentido. As que no obedeciam, no mesmo instante, tinham de passar horas andando com um livro na cabea... e se o livro casse, eram 
obrigadas a repetir o exerccio no dia seguinte.
- Vocs so rfs - lembrava ela -  procura de pessoas simpticas que queiram tir-las daqui e lev-las para suas casas, para serem parte de suas famlias. Devem 
ser melhores do que as outras crianas, as que j tm pais e casas. Devem ser mais saudveis, mais inteligentes, mais educadas, e certamente mais respeitosas.

Sua voz costumava ficar estridente nesses longos discursos. Seus olhos contemplavam cada rfo e, todos com uma viso crtica, os lbios finos contrados, enquanto 
continuava:
- Em suma, devem se tornar desejveis. Por que algum haveria de querer que um de vocs fosse seu filho ou filha?
Ela tinha razo. Quem poderia me querer? Eu havia nascido prematura. Alguns meninos e meninas diziam que eu era raqutica. Ainda no dia anterior Donald Lawson me 
chamara de An.
- Mesmo quando j estiver na escola secundria, ainda vai usar roupas de garotinha - zombara ele.
Donald se afastara com a cabea erguida. Compreendi que ele se sentia melhor por me fazer sentir pior. Minhas lgrimas eram como trofus para ele. No se arrependia 
por v-las. Em vez disso, serviam para encoraj-lo.
- At suas lgrimas so pequenas - entoara ele, ao passar por mim no corredor. - Talvez fosse melhor cham-la de Pequenas Lgrimas em vez de An.
As crianas no orfanato no eram as nicas que pensavam que havia alguma coisa errada comigo. Margaret Lester, a garota mais alta do orfanato, quatorze anos com 
pernas que pareciam se estender at os ombros, ouvira o ltimo casal conversando a meu respeito, e correra para me contar todas as coisas horrveis que haviam dito.
- O homem falou que achou voc adorvel, mas quando descobriram sua idade, queriam saber por que era to pequena. A mulher disse que voc devia ser doente, e por 
isso decidiram procurar outra criana.
Margaret contara tudo com um sorriso insinuante. Nenhum pai ou me em potencial olhava para ela. Por isso se sentia feliz quando um de ns era rejeitado.
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- No sou doente - murmurei em minha defesa. - Nem mesmo tive um resfriado durante o ano inteiro.
Sempre falava em voz baixa e suave; se tenho de repetir alguma coisa, fao um esforo para falar mais alto. A sra. McGuire dizia que eu deveria parecer mais segura.
- Pode ser um pouco tmida, Janet. Afinal, a maioria das crianas de hoje  barulhenta e desagradvel, mas as pessoas iro ignor-la se for modesta demais. Vo pensar 
que  retrada como uma tartaruga, mais  vontade dentro do casco. E voc no vai querer isso, no  mesmo?
Sacudi a cabea, mas ela continuou no sermo:
- Pois ento fique empertigada quando falar com as pessoas. Olhe para elas, no para o cho. E no retora os dedos desse jeito. Estique os ombros para trs. Precisa 
de toda altura que puder alcanar.
Quando entrei hoje em sua sala, ela me mandou sentar naquela cadeira. Ps-se a andar de um lado para o outro na minha frente, os saltos altos ressoando no cho de 
ladrilhos, enquanto me aconselhava e orientava sobre a maneira de me comportar quando os Delorices chegassem. Eram os nomes deles, Sanford e Celine Delorice. Claro 
que eu nunca os vira antes. A sra. McGuire, porm, informou que eles j tinham me visto algumas vezes. O que era uma surpresa. Algumas vezes? No pude deixar de 
especular quando; e se era verdade, por que eu nunca os vira?
- Eles sabem muita coisa a seu respeito, Janet, e ainda assim continuam interessados.  a sua melhor oportunidade at agora. Compreende isso? - Ela fez uma pausa 
para me avaliar, antes de acrescentar, rspida: - Sente-se direito!
Obedeci no mesmo instante.
- Sim, sra. McGuire. 

- Como? - Ela ps a mo atrs da orelha e inclinou-se para mim. - Disse alguma coisa, Janet?
- Sim, sra. McGuire.
- Sim o qu? - perguntou ela, recuando, as mos nos quadris.
- Sim, compreendo que esta  a minha melhor oportunidade, sra. McGuire.
- timo. Mantenha voz forte e firme. S fale quando lhe dirigirem a palavra. Sorria o mximo que puder. No abra demais as pernas. Assim est bom.
Mostre as mos.
Ela pegou minhas mos entre seus dedos compridos e finos. Virou-as de uma maneira to brusca que
meus pulsos doeram.
- Muito bem. Sabe se cuidar, Janet. Acho que  um ponto positivo em seu favor. Algumas de nossas crianas, como bem sabe, acham que so alrgicas ao banho.
A sra. McGuire olhou para o relgio.
- Eles j devem estar chegando. Vou sair para receb-los. Espere aqui. Quando passarmos pela porta, levante-se para cumpriment-los. Entendido?
- Sim, sra. McGuire.
Ela tornou a estender a mo para trs da orelha. Limpei a garganta e tentei de novo:
- Sim, sra. McGuire.
Ela sacudiu a cabea, com uma expresso de imensa tristeza, os olhos cheios de dvida.
- Esta  a sua grande oportunidade, Janet... sua melhor oportunidade. Talvez sua ltima oportunidade.
A sra. McGuire deixou a sala.
Agora eu continuava sentada ali, olhando para a estante, os retratos na mesa, as cartas emolduradas nas paredes dando-lhe os parabns por seu desempenho como diretora 
de nossa agncia de bem-estar infantil no
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interior do Estado de Nova York. Logo me cansei de observar as coisas que decoravam a sala da sra. McGuire. Virei-me na cadeira para olhar pela janela. Era um dia 
de primavera ensolarado. Suspirei ao contemplar as rvores, as folhas verdes lustrosas, as flores desabrochando. Tudo parecia me chamar. E tudo crescia depressa, 
por causa das fortes chuvas da primavera. Percebi logo que Philip, o jardineiro, no estava muito satisfeito por ter de cortar os gramados interminveis ainda no 
incio da estao. Seu rosto se contraa numa cara amarrada. Quase que eu podia ouvi-lo resmungar que a grama estava crescendo to depressa naquele ano que se podia 
at observar o crescimento. Por um momento, deixei os pensamentos vaguearem, ao som montono do cortador de grama de Philip, ao sol ofuscante que entrava pela janela.
Tentei recordar minha me verdadeira, mas nas lembranas mais antigas eu j estava no orfanato. O outro orfanato, no este, aquele em que fiquei at ser transferida 
para c, quando tinha quase sete anos. Agora estou com quase treze anos, mas at eu admitiria que no pareo ter mais do que nove, talvez dez. Porque no podia lembrar 
minha me verdadeira, Tommy Turner dizia que provavelmente eu era um daqueles bebs que os mdicos fazem em laboratrio.
- Aposto que voc nasceu num tubo de ensaio, e por isso  to pequena. Alguma coisa saiu errada com a experincia.
Ele disse isso quando saamos do refeitrio, na noite passada. Todas as outras crianas acharam muito engraado e riram de sua piada. Riram de mim.
- A me e o pai de Janet eram tubos de ensaio - zombaram todos.
- No - declarou Tommy. - O pai era uma seringa e a me um tubo de ensaio.
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- Ento quem deu a ela o nome de Janet? - perguntou Margaret, hesitante.
Tommy teve de pensar um pouco.
- Era o nome da tcnica de laboratrio, Janet Taylor. Por isso foi o escolhido.
Pelas expresses em seus rostos, pude compreender que as outras crianas acreditavam nele.
E na noite passada, como nas outras noites, eu desejara com toda a fora do meu corao poder saber qualquer coisa sobre o meu passado, algum fato, um nome, algo 
que pudesse dizer a Tommy e aos outros, para provar que j tivera um pai e uma me de verdade. No era uma an, muito menos um beb de proveta, mas sim... ora, eu 
era como uma borboleta, destinada a ser linda e a subir muito acima do solo, muito acima dos problemas e dvidas, muito acima de crianas implicantes que achavam 
graa das outras pessoas s porque eram menores e mais fracas.
O problema  que at agora eu no sara do casulo. Ainda era uma menina tmida, enroscada em meu mundo quieto e aconchegante. Sabia que um dia teria de me livrar 
dessa timidez, ser mais corajosa, falar mais firme, me tornar mais alta, mas naquele momento tudo isso parecia assustador demais. A nica maneira que eu conhecia 
para me esquivar das zombarias e evitar que as outras crianas me provocassem tanto, era permanecer em meu casulo... um lugar quente e seguro, onde ningum podia 
me magoar. Mas um dia eu subiria muito alto. Como uma linda borboleta, voaria bem alto, pairando acima de todos. Mostraria o que Podia fazer. Algum dia...
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Um

- Janet! - Ouvi o sussurro da sra. McGuire e abri os olhos no mesmo instante. Ela tinha uma expresso de raiva, a boca contorcida, os olhos cinzentos arregalados 
e brilhando como fogos de artifcio. - Sente-se direito!
Depois ela forou um sorriso e virou-se para o casal por trs.
- Por aqui, sr. e sra. Delorice - acrescentou ela, num tom muito mais simptico.
Respirei fundo, prendi o ar nos pulmes. O corao disparado soava como um tambor dentro do meu peito. A sra. McGuire foi se postar atrs de mim, para que os Delorices 
pudessem me ver direito. O sr. Delorice era alto e magro, com cabelos escuros e olhos sonolentos. A sra. Delorice sentava-se numa cadeira de rodas. Era bonita, os 
cabelos da cor de pr-do-sol vermelho. Tinha feies pequenas, como as minhas, mas com propores mais perfeitas. Os cabelos flutuavam em torno dos ombros, em ondas 
suaves. No havia nada de doentio ou frgil em sua aparncia, apesar da cadeira de rodas. A pele tinha uma tonalidade de pssego com creme, os lbios eram como morangos 
frescos.
Usava um vestido amarelo, minha cor predileta,
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com um colar de prolas pequenas no pescoo. Parecia com todas as outras mes em potencial que eu j vira, exceto pela cadeira de rodas e as sapatilhas pequenas. 
Embora eu nunca tivesse visto antes sapatilhas de bal, achei que eram aquilo. Mas se estava numa cadeira de rodas, por que usava sapatilhas de bal?
O sr. Delorice empurrou-a at a minha frente. Eu estava fascinada demais para fazer qualquer movimento, quanto mais falar. Por que uma mulher numa cadeira de rodas 
queria adotar uma criana como eu?
- Sr. e sra. Delorice, esta  Janet Taylor. Janet, sr. e sra. Delorice.
-Ol.
Obviamente, no falei bastante alto para agradar a sra. McGuire. Ela gesticulou para que eu ficasse de p e me levantei apressada.
- Por favor, minha cara, pode nos chamar de Sanford e Celine - disse a mulher bonita.
Ela estendeu a mo. Apertei-a, cautelosa. Surpreendi-me com a firmeza com que seus dedos envolveram os meus. Por um momento, olhamos apenas uma para a outra. Depois, 
fitei Sanford Delorice.
Ele me observava, os olhos bem abertos, revelando sua mistura de castanho e verde. Tinha os cabelos bem curtos, o que fazia com que o rosto magro parecesse ainda 
mais longo e estreito. Usava um casaco esporte cinza-escuro, sem gravata, uma cala azul-marinho. Os dois botes de cima da camisa branca estavam abertos. Pensei 
que devia ser para proporcionar espao de movimento ao pomo-de-ado saliente.
- Ela  perfeita, Sanford, simplesmente perfeita, no concorda? - murmurou Celine, fitando-me.
- , sim, querida.
Os dedos compridos de Sanford ainda apertavam a
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barra da cadeira de rodas, como se estivessem presos ou sentissem medo de largar.
- Alguma vez ela estudou artes? - perguntou Celine  sra. McGuire.
A mulher no olhou para a sra. McGuire ao falar. No desviava os olhos de mim. Embora aquilo comeasse a me deixar arrepiada, tambm no conseguia desviar os olhos.
- Artes?
- Canto, dana... bal, por acaso?
- Oh, no, sra. Delorice. As crianas aqui no so to afortunadas.
Os olhos de Celine se tornaram menores, fixados nos meus com uma intensidade ainda maior.
- Janet ser... isso mesmo, ser muito afortunada - previu ela, com ar de certeza absoluta. Depois, sorriu e acrescentou: - Gostaria de morar com Sanford e comigo, 
Janet? Ter seu prprio quarto, grande e confortvel. Estudar numa escola particular. Compraremos roupas novas para voc, inclusive sapatos. Ter uma rea separada 
no quarto para os deveres de casa, um banheiro s seu. Tenho certeza de que vai gostar de nossa casa. Vivemos nos arredores de Albany, com um jardim to grande quanto 
o daqui, se no maior.
- Parece maravilhoso.
A sra. McGuire fez o comentrio como se o novo lar lhe fosse oferecido. Mas a sra. Delorice no parecia nem um pouco interessada no que ela dizia. Em vez disso, 
continuou a me fitar, aguardando a minha resposta.
- Janet? - interveio a sra. McGuire, depois de longo momento de silncio.
Como eu podia recusar aquela oferta? E, no entanto, quando olhei para Sanford e de novo para Celine, no pude deixar de sentir pequenos passos de apreenso atravessando 
meu corao na ponta dos ps. Mas
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tratei de expuls-los da mente, olhei para a sra. McGuire, acenei com a cabea.
- Eu gostaria muito - declarei, desejando ser to boa quanto a sra. McGuire na simulao de um sorriso.
- timo! - Celine virou-se na cadeira de rodas para a sra. McGuire. - Quando ela poder partir?
- Temos de cumprir todas as formalidades. Mas sabendo de tudo o que j sabemos a respeito da senhora e seu marido, as slidas referncias, o relatrio da assistente 
social, etc., creio que...
- Podemos lev-la conosco hoje? - indagou Celine, impaciente.
Meu corao parou por um instante. Hoje? To depressa?
Por uma vez, a sra. McGuire ficou desorientada, sem saber o que dizer.
- Acho que  possvel - respondeu ela, ao final de uma longa pausa.
- Assim  melhor - disse Celine. - Sanford, por que no fica com a sra. McGuire e cuida de todas as formalidades necessrias? Enquanto isso, Janet e eu podemos sair 
e nos conhecer melhor.
Devia ser uma sugesto, eu suponho, mas soou como uma ordem para mim. Olhei para o sr. Delorice. Percebi que ele tinha os msculos dos maxilares contrados, enquanto 
os dedos apertavam a barra da cadeira de rodas com toda fora.
- Mas h documentos que exigem as assinaturas dos dois - insistiu a sra. McGuire.
- Sanford tem uma procurao minha, pode assinar qualquer documento no meu lugar. - Celine olhou para mim, sorrindo. - Janet, quer empurrar minha cadeira? No peso 
tanto assim.
Olhei para a sra. McGuire. Ela acenou com a cabea.
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Sanford saiu de trs da cadeira, para que eu pudesse assumir a posio.
- Para onde vamos, Janet?
- Acho que podemos sair para o jardim - respondi, indecisa.
A sra. McGuire tornou a acenar com a cabea.
-  uma idia maravilhosa. - Quando comecei a empurr-la para a porta, ela acrescentou: - No demore mais do que o necessrio, Sanford.
Adiantei-me, abri a porta, depois samos. Comecei a empurr-la pelo corredor, emocionada e espantada com o que estava acontecendo. No apenas teria pais agora, mas 
tambm encontrara uma me que queria que eu cuidasse dela, quase tanto quanto eu queria que cuidasse de mim. Era um estranho e maravilhoso comeo, pensei, enquanto 
empurrava minha nova me para o dia ensolarado que nos aguardava.
- Tem sido difcil para voc viver aqui, Janet? - perguntou Celine l fora, enquanto seguamos pelo caminho que levava ao jardim.
- No, madame - respondi, fazendo um esforo para no me distrair com as crianas que olhavam para ns.
- No me chame de madame, Janet, por favor. - Ela virou-se para pr a mo sobre a minha. Sua mo era quente. - Por que no me chama de mame? No vamos esperar para 
nos conhecermos melhor. Faa isso desde j.
- Est bem.
Dava para perceber que a sra. Delorice no gostava que discutissem suas decises.
- Fala muito baixo, querida. Imagino que se sentia insignificante. Mas no vai mais se sentir assim. Voc vai ser famosa, Janet. Vai ser espetacular.
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Ela fez a declarao com tanta veemncia que quase fiquei sem flego.
- Eu?
- Isso mesmo, Janet, voc. D a volta e sente-se neste banco.
Havamos alcanado o primeiro banco no caminho. A sra. Delorice cruzou as mos no colo e esperou at eu sentar. Depois, sorriu e continuou a falar:
- Voc flutua, Janet. Sabia disso? Desliza como se estivesse andando sobre uma nuvem.  instintivo. A graciosidade  uma coisa com que se nasce ou no, Janet. No 
se pode aprender. Ningum pode ensinar.
Ela fez uma pausa, os olhos verdes se tornaram sombrios.
- Houve um tempo em que eu era graciosa. Tambm deslizava como voc. Mas... - a expresso mudou de repente, o tom voltou a ser mais leve, mais feliz - vamos falar 
primeiro sobre voc. Eu a tenho observado.
- Quando? - perguntei, recordando o que a sra. McGuire me contara.
- Em diversas ocasies, h cerca de duas semanas. Sanford e eu estivemos aqui em diferentes horas, durante o dia. Em geral ficvamos sentados no carro, observando 
voc e seus infelizes irmos e irms brincando. Fui at v-la na escola.
Escancarei a boca em surpresa. Haviam me seguido at a escola? Ela riu.
- Quando a vi pela primeira vez, compreendi que precisava de voc. Lembra-me muito de mim mesma quando tinha a sua idade.
- Sou to parecida?
- , sim. Quando voltava para casa com Sanford, eu pensava em voc, sonhava com voc. At a via dscendo
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pela escada de nossa casa, deslizando de um lado para outro. Podia at ouvir a msica.
A sra. Delorice tinha uma expresso distante nos olhos. Comecei a pensar que ela podia ser um pouco mais do que apenas mandona.
- Que msica?
- A msica que voc vai danar, Janet. Ah... - Ela se inclinou para a frente, pegou minha mo. - H tanta coisa para lhe dizer, tanta coisa para fazer... Mal posso 
esperar para comear. Por isso  que eu queria que Sanford resolvesse logo as formalidades e nos levasse para casa. O lar... Ela fez uma pausa, repetiu a palavra, 
o tom ainda mais suave: - O lar.  uma palavra desconhecida para voc, no  mesmo? Nunca teve um lar. Sei de tudo a seu respeito.
- Pode me contar o que sabe?
Talvez ela soubesse alguma coisa sobre meu pai e minha me de verdade.
- Sei que ficou rf logo depois que nasceu. Sei que algumas pessoas idiotas vieram procurar crianas para adotar e a preteriram. Pior para elas e melhor para mim!
A sra. Delorice soltou uma risada estridente.
- O que quis dizer quando falou na msica que eu danaria?
Ela largou minha mo e recostou-se. Por um momento, pensei que no ia responder. Desviou os olhos para as rvores. Um pardal pousou perto e olhou para ns, curioso.
- Depois que a escolhi, passei a observ-la e imaginei uma apresentao sua - explicou a sra. Delorice. - Estudei seu jeito de andar, os gestos, a postura, a fim
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de determinar se era capaz de ser preparada para se tornar a bailarina que eu deveria ser, a bailarina que no posso agora sequer sonhar em me tornar. Gostaria disso? 
Gostaria de ser uma bailarina famosa, Janet?
- Uma bailarina famosa? Eu nunca tinha pensado nisso. - Minha resposta era sincera. - Gosto de danar. E gosto tambm de msica.
- Claro que gosta. Uma pessoa com a sua graciosidade e ritmo natural no pode deixar de amar a msica. Tenho certeza de que vai amar tambm a dana. E adorar o poder. 
Vai sentir...
Ela fechou os olhos, respirou fundo. Quando tornou a abrir os olhos, vi que irradiavam uma luz estranha.
- Vai sentir que pode alar voo como uma ave. Quando for boa... e ser muito boa... voc se perder na msica, Janet. A msica vai arrebat-la, como aconteceu comigo, 
muitas e muitas vezes, antes de me tornar aleijada.
- O que aconteceu com a senhora?
Eu sabia que a pergunta era uma impertinncia. Parecia bvio que falar sobre dana a deixava emocionada, mas a estranha luz em seus olhos me punha nervosa. Queria 
que ela fizesse outra coisa que no olhar para mim com tanta intensidade.
A sra. Delorice perdeu o sorriso suave e sonhador. Olhou para o prdio, antes de tornar a se virar para mim e responder:
- Sofri um terrvel acidente de carro. Sanford perdeu o controle do carro uma noite, quando voltvamos de uma festa. Ele havia bebido alm da conta, embora nunca 
v admitir isso. Alegou que foi ofuscado pelos faris de um caminho. Samos da estrada e batemos numa rvore. Ele usava o cinto de segurana, mas eu esquecera de 
pr o meu. A porta abriu e fui jogada
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para fora do carro. Sofri uma grave leso na coluna. Quase morri.
- Sinto muito - murmurei.
O rosto da sra. Delorice se tornou duro de repente, as linhas se aprofundaram, enquanto sombras escureciam sua pele.
- J no sinto mais nada. Lamentei por anos, mas ter pena de si mesma no ajuda em nada, Janet. Nunca se entregue  autocompaixo. Voc se torna incapaz de ajudar 
a si mesma.
Ela fez uma pausa. O excitamento ressurgiu, o brilho voltou a seus olhos, quando continuou:
- Tenho muita coisa para lhe dizer, Janet, muita coisa para ensinar. Vai ser maravilhoso para ns duas. No se sente excitada tambm?
- Sinto, sim.
Era verdade, mas tudo avanava depressa demais. Eu no podia deixar de me sentir tambm nervosa e um pouco assustada.
A sra. Delorice tornou a se virar para o prdio.
- Onde ele est? Nunca vi um homem perder tanto tempo em bobagens. Mas voc vai admir-lo por sua compaixo e sensibilidade, Janet. No h nada que ele no faa 
por mim agora. - O sorriso se alargou quando ela acrescentou: - E tambm no vai haver nada que ele no far por voc.
Ela fez uma pausa.
- Pense a respeito, Janet, pense um pouco. Pela primeira vez em sua vida, voc ter duas pessoas afetuosas que se importaro mais com voc do que com elas prprias. 
Isso mesmo, minha querida e preciosa Janet,  a pura verdade. Olhe para mim. Por que eu deveria continuar a me preocupar comigo? Sou prisioneira deste corpo aleijado 
pelo resto da minha vida. J Sanford...
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ora, Sanford vive para me fazer feliz. Portanto, minha cara... - a sra. Delorice soltou outra vez aquela risada estridente - se a minha felicidade depender da sua 
felicidade, Sanford vai cuidar bem de voc tanto quanto eu. Voc ser feliz, Janet.
Ela falou com tanta firmeza que me senti assustada. Era quase como se estivesse me ordenando para ser feliz.
- Eu prometo, Janet.
Sanford saiu do prdio naquele momento.
- J era tempo - murmurou ela. - Vamos embora, Janet querida. Voc vai comear agora sua nova vida. Pense nisso como seu verdadeiro nascimento. Certo? At usaremos 
este dia para comemorar seu aniversrio, daqui por diante. Por que no? Concorda? Gosto da idia.
A sra. Delorice soltou mais uma vez sua risada estridente e exclamou:
- Hoje  seu aniversrio!
Antes que eu pudesse responder, ela gritou:
- Sanford!
Para ser sincera, eu no sabia o que dizer. Meu aniversrio nunca fora uma data especial para mim. Quando ele chegou perto, a sra. Delorice declarou:
- Este dia  mais extraordinrio do que imaginvamos.  o aniversrio de Janet.
-  mesmo? - perguntou ele, parecendo confuso. - Mas eu pensei que...
- , sim.
Ela falou num tom incisivo, como se gravasse as palavras no ar entre os dois. O marido acenou com a cabea.
A sra. Delorice me estendeu a mo.
- Vamos embora logo, Janet. Temos de chegar em casa para comemorar.
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Quando percebi a expresso sombria de Sanford e me lembrei da luz estranha nos olhos da sra. Delorice, no pude deixar de me perguntar em que confuso me metera.
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Dois

Apesar dos anos em que vivera no orfanato, no havia ningum que eu lamentasse deixar para trs. Minhas despedidas foram rpidas. As pessoas que haviam zombado de 
mim por tanto tempo apenas me olharam com a maior inveja. Ningum tinha muito o que dizer. S Margaret me procurou quando eu pegava minhas coisas e sussurrou:
- Que tipo de me  essa, numa cadeira de rodas?
- Uma me que quer me amar.
Com essa resposta, deixei-a mordendo a parte interna da bochecha. Celine j estava no carro, esperando. Sanford me ajudou a guardar minhas coisas na mala, depois 
abriu a porta para mim, como se fosse meu motorista. Era um carro preto que parecia ser muito caro, os bancos de couro macios como marshmallow. O carro era to grande 
quanto uma limusine. E tinha a fragrncia de rosas frescas.
- Olhe s para ela, Sanford - disse Celine. - No se sente nem um pouco arrependida por deixar este lugar. No  verdade, querida?
- , sim... - a palavra seguinte parecia difcil de
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se formar, muito estranha para mim. Minha lngua tropeou ao pronunci-la. - mame.
- Ouviu isso, Sanford? Ouviu como ela me chamou?
- Ouvi, meu bem. - Ele olhou para mim e sorriu pela primeira vez desde que eu o conhecera. - Seja bem-vinda  nossa famlia, Janet.
- Obrigada.
Mas eu sabia que falara baixo demais para que qualquer dos dois pudesse ouvir.
- Tivemos uma boa conversa enquanto voc preenchia formulrios no escritrio, Sanford.
-  mesmo?
- Janet me contou que adora danar.
- Verdade?
Sanford parecia surpreso. Eu dissera que gostava de danar, mas nunca danara o suficiente para poder dizer que amava, ainda mais o tipo de dana a que ela se referia. 
A sra. Delorice virou a cabea para me fitar.
- Eu era menor do que voc quando comecei a danar, Janet. Minha me me dava o maior apoio, talvez porque a me dela, minha av Annie, tivesse sido uma prima ballerina. 
Partiu o corao de minha me quase tanto quanto o meu quando tive de parar de danar.
Como ela me fitava, pude verificar que aquela estranha luz retornara a seus olhos. Depois de respirar fundo, a sra. Delorice continuou:
- Meus pais ainda esto vivos. Moram na mesma casa em Westchester onde meu irmo Daniel e eu fomos criados.
Meu corao voltou a bater forte. Uma coisa era sonhar em ter um pai e uma me, outra era pensar numa famlia inteira, com avs, tios e tias. Talvez houvesse uma 
prima tambm, uma garota mais ou menos da minha idade, que pudesse se tornar minha melhor amiga-
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- Infelizmente, os pais de Sanford j morreram. - Ela lanou outro olhar para o marido. - Sua irm Marlene mora em Denver, mas quase no nos vemos. Ela no me aprova.
- Celine, por favor... - murmurou ele.
- Sanford tem razo. Nada de desagradvel hoje. Nunca mais. Voc no precisa conhecer todas as coisas desagradveis que tive de suportar, Janet. J teve problemas 
demais em sua pobre vida. Tambm no precisa se preocupar com dinheiro. Somos ricos.
- No deve dizer essas coisas, Celine.
A censura de Sanford foi no tom mais gentil possvel, mas percebi no mesmo instante que ele se arrependia de ter falado.
- Por que no? Por que eu no deveria me orgulhar disso? Sanford possui e dirige uma fbrica de vidro. No  to grande quanto a Corning, mas somos uma concorrente, 
no  mesmo, Sanford?
- , sim, querida. - Ele tornou a olhar para mim. - Depois que voc estiver assentada, eu lhe mostrarei a fbrica.
- Pode mostrar, Sanford, mas quero que saiba que ela no vai passar muito tempo ali. Ficar bastante ocupada com a escola e as aulas de bal.
Uma gota de gelo escorreu pela minha espinha.
- E se eu no for capaz de me tornar uma bailarina? O medo me dominou. Ser que me mandariam de volta?
- No ser capaz? No diga bobagem, Janet. Eu disse que voc tem a graciosidade necessria. Voc j dana. Isso mesmo, dana quando anda na maneira como fica parada, 
na maneira como olha para as pessoas, na maneira como se senta. Como eu tambm tinha esse talento, sei como reconhec-lo em outra pessoa. Voc no vai fracassar. 
- O sorriso de Celline era de confiana
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absoluta. - No permitirei que fracasse. Serei seu amortecedor, seu pra-quedas. No vai sofrer o mesmo tipo de desapontamento que eu sofri.
Ainda mais ansiosa, comprimi os braos contra o corpo. Quando era menor, fingia que meus braos eram os braos de minha me, me abraando. Fechava os olhos e imaginava 
a fragrncia de seus cabelos, a suavidade de seu rosto, o calor de seus lbios em minha testa. Celine alguma vez me abraaria assim? Ou o fato de ela viver numa 
cadeira de rodas tornaria isso muito difcil?
Olhei pela janela para a paisagem. Era como se o mundo inteiro tivesse se tornado lquido e passasse correndo por ns, num fluxo de rvores, casas, campos e at 
pessoas. Poucas nos dispensavam qualquer ateno, embora eu me sentisse muito especial. Deveriam estar batendo palmas enquanto passvamos. Eu no era mais uma rf.
- Parece que teremos chuva pela frente. Sanford acenou com a cabea para uma massa de nuvens escuras que vinha do horizonte em nossa direo.
- Essa no! - exclamou Celine. - Quero que o sol brilhe durante o dia inteiro!
Sanford sorriu e pude sentir que sua tenso se desanuviava.
- Verei o que posso fazer.
Pela maneira como ele a contemplou, apaixonado, no tive a menor dvida de que, se pudesse, moldaria o tempo e o mundo para agrad-la. Havia amor ali, pensei, algum 
tipo de amor. Eu s esperava que fosse do tipo certo.
Quando finalmente vi a casa, pensei que tinha cado num livro de histrias. Ningum podia viver numa casa assim, foi o pensamento que me ocorreu, enquanto
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subamos pelo longo caminho circular, com sebes aparadas com perfeio nas alamedas. Havia lampies de um cinza escuro a intervalos regulares, as lmpadas em armaes 
de lato. Celine no exagerara. Eles tinham um gramado maior que o orfanato. Havia frondosos bordos vermelhos, parecendo rubis escuros, alm de um par de salgueiros-chores, 
as pontas dos galhos tocando no cho para formar uma caverna de sombras. Mal pude divisar os contornos de dois bancos e um pequeno chafariz, cercado pela escurido. 
Esquilos corriam em torno do chafariz, por cima dos bancos, pelas rvores, atravs do gramado, com uma energia nervosa e feliz. Um coelho saiu de trs das rvores, 
olhou em nossa direo, e depois disparou para a relva mais alta. Virei-me para contemplar a casa, de dois andares, com uma varanda ao redor. Dois tordos desfilavam 
sobre os quatro degraus de madeira na frente. Ao lado havia uma rampa para a cadeira de rodas de Celine, com um pardal postado ali, to imvel que parecia empalhado.
Tudo parecia mgico, como se as coisas fossem tocadas por uma varinha de condo e adquirissem vida.
- Lar, doce lar - declarou Celine. - Fizemos muitas coisas para modernizar a casa, depois que a compramos.  vitoriana.
Eu no sabia o que isso significava; pela maneira como ela falou, no entanto, compreendi que se tratava de uma coisa importante.
A casa parecia ter sido pintada pouco antes, com um branco brilhante. A porta dupla de entrada tinha vidro espelhado na metade superior. Todas as janelas no primeiro 
e segundo andares tinham cortinas transparentes. S as janelas do sto eram escuras, dando a impresso de que tinham cortinas cinza, fechadas.
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- Seu quarto d para o leste, e assim ter o sol para acord-la todas as manhs - explicou Celine.
 direita e logo atrs da casa ficava a garagem, mas Sanford parou o carro na frente e saltou. Abriu a mala, tirou a cadeira de rodas de Celine. Foi abrir a porta 
dela.
- Pegue as coisas de Janet - ordenou ela, assim que se acomodou na cadeira.
- No quer que eu a leve para dentro de casa primeiro?
- No. Pedi para voc pegar as coisas de Janet. - Depois de repetir a ordem com firmeza, ela murmurou baixinho: - Onde est Mildred?
Sa do carro para ver melhor a casa, meu novo lar. O desejo de Celine fora em parte atendido. As nuvens haviam se entreaberto por um instante. Os raios do sol faziam 
as janelas faiscarem, enquanto parvamos ali. Mas antes de subirmos para a porta da frente, as nuvens tornaram a se deslocar e voltou a ficar escuro. Celine estremeceu 
e se aconchegou no xale que Sanford ajeitara em torno de seus ombros.
- O que voc acha? - perguntou-me ela, com uma expectativa ansiosa.
-  linda... - murmurei.
Mas  verdade que quase todas as casas que eu conhecera em minha vida pareciam-me lindas se tinham uma famlia dentro, mesmo que fossem da metade do tamanho e custassem 
muito menos do que aquela. Por trs das portas fechadas e no outro lado das cortinas, famlias sentavam para jantar ou assistir televiso juntas. Irmos e irms 
implicavam uns com os outros, mas se contavam segredos e mantinham os sonhos uns dos outros como confidenciais. Havia ombros em que se apoiar, lbios que removiam 
as lgrimas, vozes que aqueciam pequenos coraes, frios e assustados. Havia pais com braos fortes para pegar no colo, pais que
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recendiam a sol e loo de barba, pais com amor no sorriso; e mes que eram belas e gentis, que exalavam a fragrncia de flores, perfumes que entravam pelas narinas 
e atiavam a imaginao, povoando a mente com sonhos de se tornarem tambm lindas e adorveis.
No restava a menor dvida de que era uma casa bonita. Todas as casas eram bonitas.
- Depressa, por favor, Sanford - disse Celine, levando a cadeira de rodas at a rampa.
Ele tinha dificuldade para carregar duas malas e uma bolsa menor. Comecei a me encaminhar para a cadeira, mas Celine virou-se, na expectativa. Era como se tivesse 
olhos por trs da cabea.
- No, Janet. No quero que voc faa nada que exija tanto esforo. Pode distender um tendo.
Parei no mesmo instante, confusa. Distender um tendo? Eu no tinha a menor idia do que isso significava.
- No se preocupe - murmurou Sanford.
De alguma forma, ele conseguiu segurar a cadeira, ao mesmo tempo em que mantinha as malas debaixo do brao. Empurrou-a pela rampa e fui atrs. Ao chegarmos  varanda, 
Sanford largou as malas no cho e foi abrir a porta.
- Onde est aquela idiota? - perguntou Celine, a voz rspida.
Eu nem imaginava a quem ela se referia. Ser que outra pessoa morava naquela linda casa?
- Est tudo bem - disse Sanford, enfiando a chave na fechadura.
Celine virou-se para mim e sorriu.
- Agora voc pode me empurrar, querida. Adiantei-me apressada at a cadeira. Sanford abriu a porta e entramos na casa. O vestbulo era largo, com espelhos nos lados. 
 direita havia um cabide para casacos
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e uma mesinha, sobre a qual encontravam-se alguns folhetos. Quando cheguei mais perto, descobri que eram programas de bal. Na capa de um deles havia uma foto de 
Celine. Por cima, em letras vermelhas grandes, li as palavras A Bela Adormecida.
- Quero que veja o estdio primeiro - disse ela, quando percebeu o que atrara a minha ateno. - Sanford, leve as coisas de Janet para o quarto dela e veja se consegue 
encontrar Mildred. Vamos demorar alguns minutos.
Descobri que havia um elevador especial para Celine no lado da escada. L em cima estava outra cadeira de rodas  sua espera. Celine foi impulsionando a cadeira 
pelo interior da casa. Segui atrs, devagar, absorvendo tudo: os quadros lindos nas paredes, todos de bailarinas, uma delas muito parecida com Celine.
- Esta  a nossa sala de estar - informou ela, acenando com a cabea para uma sala  esquerda.
S pude lanar um olhar rpido porque ela j se afastava pelo corredor. Vi um sof elegante em rosa e branco, com babados na base, uma poltrona com almofadas vermelhas, 
a lareira grande de pedra, por cima da qual estava pendurado um enorme retrato de Celine, em traje de bal.
- Aqui! - anunciou ela, parando em outra porta. Fui me postar ao seu lado e olhei para a sala. Era grande e vazia, com um assoalho de madeira brilhando. Tinha espelhos 
cobrindo as paredes e uma longa barra de madeira num lado.
- Este era o meu estdio e agora  seu - informou Celine. - Mandei derrubar uma parede e ligar duas salas. No se pode poupar despesas quando se trata de sua arte.
- Minha?
- Claro, Janet. Voc ter a melhor professora, Madame
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Malisorf, que j preparou algumas das melhores bailarinas russas. Ela prpria foi outrora uma bailarina extraordinria. E foi minha mestra e mentora.
Aquela expresso distante e estranha tornou a dominar Celine.
- No sei nada sobre bal - murmurei, a voz trmula.
Tinha medo que ela quisesse que eu voltasse ao orfanato imediatamente quando soubesse da minha falta de jeito.
- No se preocupe - respondeu ela, pegando minha mo. -  melhor assim. Prefiro que voc no saiba nada.
-  mesmo?
- , sim. Dessa maneira,  uma bailarina pura, inocente e intacta, no contaminada por alguma professora medocre. Madame Malisorf ficar satisfeita. Ela adora trabalhar 
com o talento puro.
- Mas no tenho nenhum talento!
- Claro que tem.
- Acho que nunca sequer vi um bal na televiso. Celine riu e me senti contente ao verificar que ela retomava seu rosto normal.
- Nunca imaginei que tivesse visto, vivendo em lugares como aquele, com crianas que no tiveram oportunidades. Mas no deve ter medo. - A voz era suave. Ela apertou 
a minha mo. - O bal no  to difcil como voc pode imaginar. No  uma estranha forma de dana reservada apenas aos muito ricos.  apenas outra maneira de contar 
uma histria, uma linda maneira, atravs da dana. O bal  a base de todo o teatro de dana do mundo ocidental. Pessoas que querem se tornar danarinos modernos 
sempre recebem o conselho de comear pelo bal.
-  mesmo?
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- Claro que . - Celine sorriu. - Portanto, far uma coisa que a ajudar sob muitos aspectos. Ter uma postura maravilhosa, mais graciosidade, ritmo e beleza. Voc 
ser a minha prima ballerina, Janet.
Ela me fitava com olhos to cheios de esperana e amor que s pude retribuir ao sorriso. Foi nesse instante que ouvimos uma porta bater e algum descer a escada 
s pressas. Celine virou a cadeira. Tambm olhei para trs. Vi uma jovem loura e alta aproximar-se pelo corredor. Vestia um uniforme de criada. Tinha grandes olhos 
castanhos, o nariz um pouco comprido, a boca um pouco larga demais, com um queixo pequeno e pontudo.
- Desculpe, sra. Delorice. No ouvi o carro chegar.
- Provavelmente porque tinha aqueles fones estpidos nos ouvidos, escutando aquela horrvel msica de rock - comentou Celine, secamente.
A criada se encolheu e comeou a balanar a cabea, vigorosamente.
- Pare de se lamentar, Mildred. Esta  nossa filha, Janet. - O tom rspido de Celine se atenuou no momento seguinte, quando ela olhou para mim. - Janet, esta  nossa 
criada, Mildred Stemple.
- Como tem passado? - Mildred fez uma pequena mesura. Ao sorrir, as feies se transformaram, fazendo com que parecesse bonita. - Pode me chamar de Milly.
- Ela no vai cham-la assim - interveio Celine, com firmeza. - Seu nome  Mildred.
O sorriso de Mildred murchou.
- Ol... Mildred - murmurei, sem querer criar problemas.
- Eu estava trabalhando para deixar o quarto dela limpo e arrumado, sra. Delorice - declarou Mildred, continuando a explicao por no ter aparecido na porta da 
frente.
- Voc sempre deixa tudo para o ltimo minuto,
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Mildred. No sei por que a mantenho aqui. Vamos jantar cedo esta noite. Posso presumir que j ps o peru para assar?
- J, sim, sra. Delorice.
- Pois ento trate de aprontar o resto.
Mildred me lanou um rpido olhar e um sorriso, para depois se retirar.
- Essa  a minha obra de caridade - murmurou Celine, levantando os olhos para o teto. - Mas vamos voltar ao que eu dizia. Madame Malisorf vir aqui depois de amanh 
para conhec-la.
- Depois de amanh?
- No queremos perder tempo, minha cara. Na dana, especialmente no bal, a prtica  muito importante. Eu gostaria de ter descoberto voc quando era anos mais jovem. 
Teria sido muito mais fcil. Mas tambm no precisa se afligir. Voc est numa idade perfeita. Comear com uma seqncia de exerccios para desenvolver seus preciosos 
msculos. H sempre muito alongamento e aquecimento para evitar as leses. E aprender como usar a barre.
- A barre?
- Sempre chamamos a barra ali de barre. Todos os nomes no bal so franceses. O bal comeou na Frana. Voc usa a barre para se firmar durante a primeira parte 
da aula de bal. Proporciona resistncia quando voc se inclina para baixo. Tambm ajuda a alongar a espinha.
Ela soltou uma risada.
- Pense na barre como seu primeiro par. Eu lhe dei o nome de Pierre. - A pronncia do francs me pareceu perfeita. - Tenho certeza de que voc tambm vai encontrar 
um nome apropriado para o seu primeiro par.
Olhei pela porta para a barre, sem entender como poderia algum dia imaginar que aquilo era uma pessoa.
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- Vamos embora, minha cara. Temos muito o que fazer. Preciso providenciar as sapatilhas e comprar suas malhas amanh de manh.
- E a escola? - perguntei.
Celine continuou a impulsionar a cadeira de rodas por mais um momento. Parou na base da escada.
- No se preocupe. Vou matricul-la numa escola particular. Poderemos cuidar disso mais tarde. Primeiro, as coisas mais importantes.
Ela comeou a se transferir para a cadeira do elevador enquanto ainda falava.
Primeiro as coisas mais importantes? Mas a escola no era a mais importante?
- Deixe-me ajud-la, querida - murmurou Sanford, descendo a escada.
- No precisa.
Celine acomodou-se na cadeira do elevador. Apertou um boto. A cadeira comeou a subir, junto da grade. Observei-a por um instante. Ela parecia radiante e excitada 
enquanto subia.
-  maravilhoso - comentou Sanford, ao meu lado. - Sua presena aqui j proporcionou uma nova fora a Celine. Somos abenoados por ter voc em nossa casa, minha 
cara.
Olhei para ele, sem entender o que podia ter feito para proporcionar tanta felicidade a duas pessoas que horas antes no passavam de absolutos estranhos. E no pude 
deixar de temer que estivessem me confundindo com outra pessoa.
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Trs

Fiquei boquiaberta quando parei na porta do quarto que seria meu. Nunca, nem mesmo nas fantasias mais extravagantes, eu fora capaz de imaginar um quarto to bonito 
quanto aquele. Nem to grande e aconchegante. E, ainda por cima, aquela era a primeira vez na vida em que tinha um quarto s para mim!
- Gostou do seu quarto? - perguntou Celine, excitada.
Por um momento, no fui capaz de falar. Se eu tinha gostado? O verbo gostar era fraco demais para descrever o que eu sentia, pensei. Ia mesmo dormir aqui e viveria 
e faria os deveres da escola aqui?
-  enorme...
Tive medo de entrar. Se o fizesse, foi meu receio, tudo poderia desaparecer como um sonho. Celine avanou na cadeira de rodas. Sanford postou-se atrs de mim, com 
as mos em meus ombros, enquanto ela inspecionava o quarto para ter certeza de que Mildred arrumara tudo direito.
- Tudo certo. Pelo menos suas coisas foram guardadas. Vamos fazer compras amanh de manh, Janet. Voc precisa ter algumas roupas decentes.
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- Eu gostaria de ir  fbrica primeiro, querida - interveio Sanford. - Se voltar logo e...
- Pode se manter longe de sua preciosa fbrica por mais um dia, Sanford. Seu gerente  muito competente. - Celine olhou para mim. - De qualquer maneira, o que  
mais importante?
Ela tornou a olhar para o marido, com uma expresso decidida. Sanford no disse nada.
Ansiosa em evitar palavras veementes e olhares irritados, tratei de entrar no quarto. As cortinas eram rosadas como os flamingos, assim como o dossel da cama, os 
travesseiros e a colcha. Havia uma escrivaninha branca como casca de ovo, um abajur com a base no formato de um pato. As paredes eram ornamentadas com quadros de 
bailarinas.
- Essas cenas so de bals famosos, Janet - explicou Celine. - Aquele  Lago dos Cisnes, este  de Le Jeune Homme et La Mort. A que est por cima da cama  de Romeu 
e Julieta. Quero que voc viva cercada pela dana... durma, coma e beba, do jeito que eu era. Com o passar do tempo, ser a nica coisa com que vai se importar.
Mais uma vez, senti que era uma ordem. Celine foi at um armrio ao lado do closet e abriu-o.
- Aqui encontrar fitas e CDs das msicas que eu quero que escute. Ter de conhec-las to bem que at ser capaz de cantarolar por inteiro. A msica deve se tornar 
uma parte de voc. Vai acabar como eu, ouvindo o msica em toda parte, mesmo quando estiver fora do estdio. E se descobrir querendo fazer uma pirueta ou Efetuar 
um changement de pieds.
- O que  isso?
Ela olhou para Sanford e sorriu.
- Com bastante freqncia, voc precisa mudar a posio dos ps, do p direito na frente para o p
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esquerdo na frente, ou vice-versa.  um pulo que termina com o outro p na frente. Portanto, changement de pieds significa mudana de ps. No se preocupe. Ser 
mais fcil do que imagina, ainda mais para voc.
Olhei para Sanford, a fim de verificar se ele tinha a mesma confiana em mim. Seus olhos irradiavam um sorriso.
- Deixe-a conhecer melhor seu novo quarto, Celine.
- Claro - disse ela, recuando. - O banheiro  naquela porta.
Dei uma olhada na banheira redonda e no boxe do chuveiro. Todas as torneiras eram de lato reluzente. Olhei para as toalhas penduradas. Havia alguma coisa escrita 
nelas. Cheguei mais perto para ler.
- Meu nome est na toalha! Sanford riu.
- E tambm no copo e na saboneteira - informou ele.
Espantada, verifiquei tudo.
- Mas como fizeram isso to depressa?
- Lembre-se de que tenho uma fbrica de vidro e muitas ligaes - disse Sanford, obviamente divertido com a minha pergunta.
- Mas como soube que eu viria morar aqui?
Ele olhou para Celine, que impulsionara a cadeira de rodas at a porta do banheiro.
- J lhe disse, minha cara, que compreendi que era a garota certa desde o momento em que a vi pela primeira vez. A nica certa. Estvamos destinadas a formar uma 
famlia.
Pensei que ia explodir pela maneira como a felicidade encheu meu corao. Uma linda casa, mveis, coisas com meu nome no banheiro, roupas novas, tudo que eu podia 
querer. Era Natal na primavera.
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- Est feliz? - perguntou Sanford.
- E muito!
Quase que gritei a resposta. Finalmente, pensei, estou falando bastante alto para agradar at a sra. McGuire.
- Isso  timo. Agora, troque de roupa e lhe mostrarei os jardins - disse Sanford. - H um lago l atrs onde os gansos pousam no vero.
- Eu vou telefonar para Madame Malisorf - informou Celine - e confirmar sua primeira aula para depois de amanh. Estou to emocionada... ser que no deveramos 
antecipar para amanh de manh? No, no d. Amanh temos de comprar as sapatilhas e as malhas. No vamos nos precipitar.
- No deveria esperar antes de comprar as sapatilhas, minha cara? - perguntou Sanford, suavemente.
- De jeito nenhum! - Ela virou-se para mim. - Janet ser a melhor discpula de Madame Malisorf... depois de mim,  claro. Que dia maravilhoso!
Celine pegou minha mo e a de Sanford, com aquela expresso distante.
- Somos finalmente uma famlia.
Pensei que as lgrimas que ardiam sob minhas plpebras iam escorrer pela face, mas permaneceram onde estavam,  espera de outra ocasio.
Depois que troquei de roupa, pondo um jeans velho, uma blusa e tnis, vagueei pelo corredor no segundo andar. Havia outro quarto com a porta fechada, depois o quarto 
de Celine e Sanford. Eu no queria dar a impresso de que espionava. Por isso, virei-me para descer e esperar l embaixo, quando ouvi Celine mencionar meu nome.
- Janet vai desabrochar como uma flor em nosso solo, no  mesmo, Sanford?
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- Claro, querida. E agora descanse um pouco, por favor. Foi um dia longo e emocionante para todos ns.
- E quando ela desabrochar - continuou Celine, ignorando-o - vai deslumbrar as audincias da maneira como eu tencionava fazer.
Deslumbrar audincias? Eu? A menina que as outras crianas chamavam de Gata Medrosa, por tanto tempo quanto podia me lembrar? A que no era capaz de falar bastante 
alto para que algum ao meu lado pudesse ouvir direito? Apresentar-me diante de audincias e deslumbr-las? Como poderia? Assim que Celine e Sanford descobrissem 
que eu no era capaz, tratariam de me mandar de volta ao orfanato. Tinha tanta certeza que meu corao murchou. O lindo quarto, aquela casa, a promessa de uma famlia, 
tudo no passava de um sonho. Baixei a cabea e desci a escada, lentamente.
Entrei na sala de estar e olhei para o retrato de Celine pendurado em cima da lareira. O pintor a mostrara no meio de um salto, talvez aquele changement de pieds 
que ela descrevera. As pernas, as mesmas que ficavam ocultas agora sob uma manta, inertes e sem vida, eram musculosas no quadro. Celine parecia uma ave alando voo, 
como ela garantira que eu me sentiria um dia. Como ela era graciosa e bela contra o fundo escuro! O quadro era to parecido com a vida que quase esperei que ela 
pousasse na minha frente.
- Ah, ento voc est aqui. - Deparei com Sanford na porta ao me virar. - Celine foi descansar um pouco. Vamos sair. Comearemos pelo lago.
Notei que ele falava num tom muito diferente na ausncia de Celine. Ao sairmos, descobri que o cu limpara, como Celine dissera que aconteceria. No pude deixar 
de me perguntar se todos e tudo faziam o que Celine pedia.
- Por aqui.
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Sanford virou  direita ao descer os degraus. Andava com as mos nas costas, o corpo alto e magro inclinado para a frente. As passadas eram longas e geis, uma para 
cada duas das minhas.
- Esta casa foi um achado. O estado de conservao era timo, apesar da idade. Realizamos diversas mudanas e melhorias. Tenho certeza de que voc ser to feliz 
aqui quanto ns temos sido, Janet. - Ele sorriu e acenou com a cabea para a elevao  nossa frente. - O lago fica logo depois da crista. Tenho um barco a remo, 
mas h bastante tempo que no o usamos. Sabe nadar, Janet?
- No, senhor.
Falei baixinho, com medo de acrescentar outro "no" ao meu nome. No sei danar. No sei nadar. No posso ficar.
- Teremos de remediar isso antes do vero... e, por favor, no me chame de senhor. Se no puder me chamar de papai por enquanto, ento me trate apenas por Sanford, 
est bem?
Seus olhos faiscavam. Relaxei e retribu ao sorriso. J tinha a impresso de que Sanford seria muito mais fcil de agradar do que Celine.
Continuamos a andar.
- Tenho uma firma que vem duas vezes por semana para cuidar dos jardins. - Ele acenou com o brao comprido para leste. - Possumos todo esse terreno e mais alguma 
coisa. Deixei o bosque intacto, para termos privacidade e a sensao de que nos encontramos no meio da natureza. No estamos muito longe da cidade. A escola particular 
em que voc vai estudar fica a apenas vinte e cinco quilmetros de distncia. Celine j tomou todas as providncias. Apenas tenho de lev-la at l para fazer a 
matrcula.
- Ela cuidou de tudo?
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Era estranho pensar que Celine planejara uma vida para mim, para ns, antes mesmo de eu conhec-la. Seu dissesse que no queria ir embora com eles? Mas, por outro 
lado, eu era uma rf... e rfos nunca dizem no. Sanford riu da minha expresso de perplexidad
- Isso mesmo. Celine vem se preparando para sua vinda literalmente desde o primeiro momento em que a viu, Janet. Jamais esquecerei aquele dia. Ela ficou to excitada 
que no conseguiu dormir. No parava de falar a seu respeito. Conversou at tarde da noite. Quando acordei na manh seguinte, seu nome foi a primeira palavra que 
ela pronunciou.
Em vez de me encher de alegria, essas palavras provocaram pequenos choques eltricos de medo ao longo da minha espinha. O que Celine vira em mim que eu mesma no 
podia ver, que ningum jamais vira antes? E se fosse tudo inverdade?
- Por que nunca tiveram filhos? - perguntei. Sanford se manteve em silncio por alguns minutos, enquanto continuvamos a andar. Pensei que talvez no tivesse me 
ouvido. Mas depois ele parou, olhou para a casa, suspirou. A expresso sombria que eu vira antes retornou a seu rosto.
- Eu queria ter filhos. Desde o primeiro dia do meu casamento, planejava ter uma famlia. Mas Celine era dedicada demais  sua carreira. Achava que ter 1 criana 
tiraria toda a sua fora como bailarina.
Recomeamos a andar, a caminho do lago.
- Alm do mais, ela seria a primeira a admitir que no tinha temperamento para filhos naquele tempo. Sanford sacudiu a cabea. - Era preciso procurar muito para 
encontrar uma pessoa to mal-humorada. Ele se sentia como um meteorologista inepto, incapaz de ver os dias de sol ou tempestade. Num momento ela mostrava-se relaxada 
e feliz, mas no seguinte, por causa
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de alguma insatisfao num ensaio, tornava-se deprimida e triste, definhando como uma flor sem gua. Nada que eu fizesse era capaz de anim-la. Mas...
Ele fez uma pausa, sorriu para mim outra vez.
- Agora que voc est aqui, tudo isso vai mudar. No haver mais dias de tempestade.
Como eu podia deixar Celine to feliz a ponto de esquecer o que acontecera com suas pernas? Observar-me danar faria com que se sentisse melhor por nunca mais ser 
capaz de danar? Como eu podia ser responsvel pela felicidade de Celine? Era muito pequena e muito tmida. Nunca conseguiria faz-lo.
- Eu tinha a sensao de que andava descalo sobre cacos de vidro quando voltava para casa do trabalho todos os dias.
A voz de Sanford interrompeu meu devaneio. Era agradvel escut-lo, abrindo o corao para mim como se eu j fosse parte da famlia, h muitos anos. Eu s gostaria 
que os pensamentos e desejos confidenciados por ele fossem agradveis. Quanto mais Sanford falava, no entanto, mais eu compreendia como ele era triste e amargurado.
- Os nimos de Celine eram totalmente imprevisveis. Pioraram ainda mais depois do acidente. Mas agora tudo vai mudar.
Ele reiterou a afirmao com a maior jovialidade. Percebi que fazia um esforo para no dizer qualquer coisa depressiva.
Paramos no alto da elevao e contemplamos o lago. Tremeluzia ao sol, a gua parecendo lisa como gelo. Havia um atracadouro logo abaixo de ns, com o barco que ele 
descrevera.
- O lago no  muito grande, tem menos de um quilmetro, mas  sempre agradvel ter uma massa de gua em sua propriedade. E os gansos que nos visitavam
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todos os anos oferecem uma cena maravilhosa, quase no final do vero. Voc vai gostar.
Senti-me feliz por ouvi-lo planejar minha presena na casa por todo aquele tempo.
-  muito bonito - comentei, grata por ele ter mudado de assunto.
- Tambm acho. - Sanford pensou por um momento, e depois me fitou. - Tenho falado demais sobre ns. No lhe dei uma oportunidade de falar a seu respeito. Quais so 
as coisas que voc gosta de fazer? Alguma vez j patinou no gelo?
Sacudi a cabea.
- Tenho certeza de que nunca esquiou. Pratica algum esporte?
- S fao esportes na escola. Nunca jogamos nada no orfanato.
- E livros? Gosta de ler?
- Gosto.
- timo. Temos uma boa biblioteca. Tambm gosto de ler. Imagino que gosta de televiso.
Acenei com a cabea.
- E cinema?
- No fui ao cinema muitas vezes.
Na verdade, eu podia contar as vezes nos dedos das mos.
- Sua vida vai mudar muito, Janet. Quase que me sinto mais excitado por voc do que por ns. - Depois de um momento, ele acrescentou: - Vamos embora. Quero lhe mostrar 
os morangos silvestres.
Tive quase que correr para acompanh-lo. Morangos silvestres, um lago com um barco, lindas flores e um vasto jardim exclusivo, uma escola particular e roupas novas. 
Eu comeava a acreditar que era mesmo Cinderela! S esperava poder adiar pelo mximo de tempo possvel a batida da meia-noite.
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Naquela noite tive meu primeiro jantar em minha nova casa. Celine usava um vestido de tric vermelho, com brincos de ouro no formato de lgrimas, um colar com um 
camafeu engastado em ouro. Estava linda. Sanford usava terno e gravata. Eu s tinha o vestido azul-claro surrado que usara em nosso primeiro encontro no orfanato.
A sala de jantar era iluminada por um enorme lustre sobre a mesa. Todos os pratos, guardanapos, velas e talheres pareciam to caros que eu tinha medo at de tocar. 
Sanford sentou numa extremidade da mesa comprida, com Celine na outra e eu no lado. Mildred comeou a servir a comida momentos depois que sentamos. Nada parecia 
to estranho quanto ter uma criada. Desde o dia em que podamos fazer as coisas sozinhas no orfanato, passvamos a cuidar de nossas prprias necessidades.
Observei como Celine comia, bicando a comida, que nem um passarinho. Enquanto isso, Sanford me explicava qual talher usar e a etiqueta do jantar. Tudo estava delicioso 
e eu sentia a maior fome, mas Celine no me permitiu comer tanto quanto eu gostaria.
- No oferea a ela uma segunda poro de batatas - ordenou ela, quando Sanford estendeu a mo para a tigela. - De hoje em diante, Janet tem de se manter numa dieta.
Celine virou-se para mim e explicou:
- As bailarinas precisam manter a silhueta. A gordura em excesso  inadmissvel. Vai retardar os movimentos, deix-la desajeitada. Embora no dance mais, ainda cuido 
do meu corpo. Os hbitos tornam-se parte de quem voc , definem sua personalidade. Lembre-se disso, Janet. Estou lhe transmitindo toda a minha sabedoria, a mesma 
sabedoria que me foi transmitida por pessoas muito famosas e bem-sucedidas.
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Deixei a mesa naquela noite ainda sentindo alguma fome o que nunca me acontecia no orfanato. Era estranho contemplar todas aquelas comidas deliciosas e ter que me 
abster de sabore-las. Olhava para Celine cada vez que Sanford me passava qualquer coisa; se ela franzia o rosto ou se mostrava insatisfeita, eu no aceitava. Meu 
estmago roncou mais alto quando recusei um bolo de chocolate com creme, de aparncia apetitosa.
Vai descobrir que no h um aparelho de televiso em seu quarto - informou Celine, impulsionando sua cadeira de rodas ao meu lado, enquanto passvamos para a sala 
de estar. - Sei que as adolescentes adoram televiso, mas entre a escola e as aulas de bal, no vai lhe sobrar muito tempo para outras coisas, especialmente as 
frvolas. Nunca me sobrava.
Eu quase no via televiso no orfanato. Havia apenas um aparelho, na sala de recreao, e os meninos mais velhos sempre decidiam o que todos iam assistir.
Eu preferia ler.
O que  timo. Tenho um livro sobre bal que quero que voc comece a ler esta noite.
Ela entrou na sala de estar na minha frente. Fui atrs e observei-a tirar um livro de uma estante. Estendeu-o para mim e me adiantei apressada para peg-lo.
Tem vrias informaes bsicas, Janet. Assim, voc no vai bancar a boba quando Madame Malisorf vier depois de amanh.
Ela est muito excitada para ler e reter todas as informaes, Celine - protestou Sanford, a voz suave.
No pude deixar de pensar que Celine poderia escut-lo se ele falasse com um pouco mais de firmeza.
- No diga bobagem. Sei que ela tambm est cansada. Vai querer agora subir para seu quarto, deitar na cama e ler.
Celine virou-se para mim, obviamente a espera de
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minha concordncia. Olhei para Sanford, para o livro e depois para ela.
- Tem razo - murmurei. - Estou cansada.
- Sei disso. No  todos os dias que se comea uma vida nova. - Celine pegou minha mo. - Somos to parecidas, voc e eu, que  como se fosse realmente minha filha.
Vi lgrimas em seus olhos. O que trouxe lgrimas aos meus. Meu corao batia forte com a promessa de encontrar o verdadeiro amor, a verdadeira alegria.
- Tenha uma boa noite, Janet. Seja bem-vinda ao seu novo lar.
Ela me puxou para baixo e beijou-me no rosto. Foi a primeira vez na vida em que algum que queria ser minha me me beijava. Reprimi as lgrimas de felicidade e me 
encaminhei para a porta. Sanford deteve-me e tambm me deu um beijo no rosto.
- Boa-noite, Janet - murmurou ele. - Pode me chamar se precisar de qualquer coisa.
Agradeci e subi a escada, quase correndo, com o livro de bal na mo.
Fui para o meu quarto, parei ali, fiquei olhando ao redor, em espanto e admirao.
Tinha um lar.
Era a filha de algum.
Finalmente.
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Quatro

Celine sentia-se to animada em me aprontar para as aulas de bal que, no dia seguinte, entrou em meu quarto antes mesmo que eu abrisse os olhos. Na noite passada, 
quando finalmente encostara a cabea no travesseiro macio, eu me virara e me contemplara no espelho na parede. A cama era to grande que eu at parecia menor do 
que era na realidade. Mas era confortvel, a cama mais confortvel em que eu j dormira, com lenis novos e lavados. Quando dei por mim, j era de manh.
- Levante e brilhe, levante e brilhe - entoou Celine, ao avanar pelo quarto, na cadeira de rodas. - Temos uma poro de coisas para fazer hoje, Janet.
Esfreguei os olhos para me livrar do sono, e sentei na cama.
- Ah, voc dormiu de roupas de baixo! - exclamou ela. - No tem uma camisola?
- No.
- Como mandam uma menina para o mundo sem uma camisola? Vamos, levante-se. Trate de se lavar e se vestir. Desa para o caf da manh em quinze minutos. Depois sairemos 
para fazer compras.
Ela acenou com a mo, autoritria, virou-se e saiu
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do quarto. Apressei-me em fazer o que ela mandara. Desci dez minutos depois. Sanford j estava de palet e gravata, sentado  mesa, lendo o jornal.
- Mildred! - chamou Celine, assim que entrei na sala de jantar.
Mildred veio da cozinha, carregando uma bandeja com suco de laranja, torradas com manteiga e ovos quentes. Eu nunca comera um ovo quente antes. Fiquei olhando aturdida 
quando foi posto na minha frente.
- Comea sua dieta hoje - explicou Celine, quando percebeu minha expresso curiosa.
- Dieta? - Eu nunca fora acusada de ter excesso de peso. Ao contrrio, todos pensavam que eu era subdesenvolvida. - Mas no peso muito.
Celine riu.
- Dieta no  uma coisa que voc faz s para emagrecer. Dieta neste caso significa comer direito. Uma bailarina  uma atleta e tem de comer e viver como tal, Janet. 
Vamos, comece a comer.
Sanford baixou o jornal e me ofereceu um olhar simptico, enquanto eu tomava o suco de laranja.
- Dormiu bem? - perguntou ele.
- Dormi.
Celine inclinou-se para mim e sussurrou:
- Papai.
- Dormi, papai.
- timo.
Sanford voltou  leitura do jornal, enquanto Celine discorria sobre nossa agenda.
- J marquei uma reunio na sapataria para providenciar as sapatilhas. Iremos em seguida  loja que vai fornecer seus trajes de dana. Depois, visitaremos a loja 
de departamentos para lhe comprar mais algumas roupas, sapatos, lingerie e um bom casaco para voc... e uma camisola,  claro.
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- E a escola? - perguntei, enquanto comia, pois no podia deixar de pensar como seria ter novos professores, conhecer novas crianas da minha idade.
- A escola pode esperar por mais um dia - declarou Celine. - Tenho certeza de que voc  uma excelente aluna e no vai demorar a recuperar o tempo perdido.
Eu era mesmo uma boa aluna, mas ainda assim me surpreendi por sua confiana na minha capacidade. Sanford dobrou o jornal, tomou um gole de caf e acenou com a cabea.
- Depois das compras, passaremos pela fbrica - acrescentou ele.
- Se tivermos tempo - ressaltou Celine.
Eu mal acabara de comer quando ela se afastou da mesa e declarou que eu devia escovar os dentes e ir ao banheiro". Teramos de nos encontrar na porta da frente dentro 
de dez minutos.
Tudo era dez minutos, cinco minutos. Para uma mulher numa cadeira de rodas, ela tinha uma energia incrvel. Enquanto subia correndo a escada, pensei que fora acordada 
para participar de alguma espcie de maratona. Mas tinha medo de enunciar sequer uma slaba de protesto. Sanford parecia muito feliz com o excitamento e a energia 
de Celine; e, no final das contas, ambos queriam fazer muitas coisas por mim.
Quando tornei a descer, Celine j se encontrava no carro, esperando. Sanford guardava a cadeira de rodas na mala.
- Depressa! - gritou ela. - Quero terminar tudo num s dia!
Corri para o carro e embarquei. Partimos um momento depois.
- Ter sapatilhas apropriadas  condio imprescindvel para o sucesso como bailarina - explicou Celine. - No bal, talvez mais do que em qualquer outra
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coisa, os preparativos iniciais so muito importantes, mas muito mesmo. Suas sapatilhas devem se ajustar como uma segunda pele. No h espao para o crescimento. 
Quando puser as sapatilhas antes dos exerccios no amarre os cordes muito apertados. Isso pode lesionar o tendo de Aquiles. Deixe-me ver seus ps.
- Meus ps?
- Isso mesmo, seus ps. Preciso verificar uma coisa que j deveria ter observado antes.
Tirei os tnis e as meias. Ela se inclinou para trs, entre os bancos, puxou meus ps para a frente, examinou os dedos.
- As unhas esto compridas demais. No lhe ensinaram coisa alguma no orfanato? Deve manter as unhas dos ps sempre curtas. Corte todas as manhs, mas todas as manhs 
mesmo, entende?
- Est bem - murmurei, acenando com a cabea. Celine abriu a bolsa e tirou um cortador de unha.
Entregou-me e ficou me olhando aparar as unhas dos ps. Minhas mos tremiam e pensei que poderia me cortar. Mas Celine comeava a parecer zangada e eu queria agrad-la.
- Tem certeza de que a loja abre to cedo, Celine? perguntou Sanford, ao nos aproximarmos do distrito comercial.
- Claro que tenho. Marquei uma hora. Eles sabem como isso  importante para mim.
A voz de Celine j era mais calma agora. Apressei-me em pr as meias e os tnis. Olhei pela janela, enquanto o carro diminua a velocidade e parava na frente da 
loja. Sanford saltou para pegar a cadeira de (rodas na mala.
-  muito inconveniente ter de esperar por aquela coisa - murmurou ela. - Ainda por cima, Sanford  mais lento do que uma tartaruga.
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Celine estava ansiosa em entrar na loja e me comprar as sapatilhas. Desejei estar to excitada quanto ela, mas sentia que fora apanhada por um turbilho e mal tinha 
tempo para respirar. Assim que se acomodou na cadeira de rodas, ela me chamou.
- Vamos logo, Janet. Estamos atrasadas.
Ao entrarmos na loja, o vendedor, baixo, gorducho e careca, com culos bifocais sobre o nariz grosso, veio dos fundos, bamboleando, para nos cumprimentar.
- Bom-dia, sra. Delorice.  um prazer tornar a v-la...
- Aqui est ela - interrompeu Celine. - Janet, sente-se e tire os tnis e as meias.
O vendedor acenou com a cabea para Sanford.
- Sr. Delorice.
- Bom-dia, Charles. Como tem passado?
- Muito bem, obrigado.
- Por favor, vamos nos concentrar - exigiu Celine.
Charles franziu o rosto e agachou-se para examinar meus ps. Ergueu-os em suas mos como se fossem jias, virou-os gentilmente para um lado e outro. Tateou sob meus 
dedos, comprimiu os calcanhares.
- Delicados - comentou ele.
- Ela pode lhe parecer pequena, mas no  frgil - assegurou Celine.
- Claro que posso perceber o potencial, sra. Delorice. Vou providenciar as sapatilhas certas.
Ele parecia sinceramente satisfeito. Levantou-se e voltou para os fundos da loja.
- Todas as sapatilhas so feitas  mo - explicou Celine. - No h lado direito ou esquerdo. Portanto, no se confunda.
- Devem custar muito caro - murmurei, torcendo para que o dinheiro no fosse desperdiado.
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- Claro que custam, se so boas... e voc deve ter as melhores. Nossos equipamentos, os trajes, todos os preparativos so muito importantes para ns, Janet.
Era a primeira vez que ela se inclua. Soou esquisito. Era como se Celine pudesse se levantar da cadeira de rodas e fazer uma pirouette em plena loja.
Charles trouxe trs pares e experimentou-os em meus ps. Celine conferiu junto com ele. Mandou que eu me levantasse, andasse pela loja.
- Uma jovem muito graciosa - comentou Charles. Eu comeava a me perguntar se Celine no tinha razo. Talvez eu pudesse mesmo me tornar uma bailarina.
- Tambm acho. - Os olhos de Celine faiscavam de excitamento. - Como se sente, Janet? Lembre-se de que quero que voc pense nas sapatilhas como uma segunda pele.
- Acho que esto boas.
Mas eu no tinha certeza. Nunca usara sapatilhas antes, no sabia como deveria senti-las.
- Estas sapatilhas tm Toe-Flo - informou Charles - a melhor coisa que j inventaram para acolchoamento.
- No quero que ela se torne muito dependente de protetores. Prefiro que seus ps se fortaleam depressa.
A expresso de Celine era sombria agora.
- Pode ter certeza de que isso vai acontecer - garantiu Charles.
-  o que veremos. Levaremos estas sapatilhas.
- Excelente escolha, sra. Delorice.
Quase que pude sentir os sinais de dlares flutuando na mente de Charles. Sentei e comecei a tirar as sapatilhas.
- Precisamos ter as melhores para podermos nos desenvolver depressa. - Celine sorriu e afagou meus cabelos. - Vamos nos tornar prima ballerinas.
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Olhei para Sanford, parado ao lado da porta. Mais uma vez, surpreendi-o com uma expresso de profunda preocupao, os olhos fixados em Celine. Mas depois ele percebeu 
que eu o observava, e se apressou em sorrir.
Compradas as sapatilhas, fomos para uma loja que vendia trajes para bal, malhas e tutus. Celine comprou meia dzia de trajes. Foi apenas o comeo do que se transformou 
num frenesi de compras. Fomos  loja de departamentos, passamos pelas sees de lingerie, sapatos e roupas. As caixas registradoras cantavam, emitindo longas notas. 
Era como se todas as roupas que eu devesse ter tido desde o nascimento estivessem sendo compradas agora. Em um s dia, eu alcanava as crianas que nunca haviam 
sido rfs. Mal tinha tempo de respirar antes de ser levada para outra seo da loja, onde era medida, vestida e ajustada, para usar qualquer coisa que Celine achava 
que podia ficar bonita em mim. As etiquetas com o preo pareciam no ter a menor importncia. Ela no olhou para nenhuma, nem piscava os olhos quando as somas eram 
feitas. Limitava-se a estender a nota para Sanford, que entregava seu carto de crdito.
Apenas um dia antes eu pensava em mim como um alvo de caridade, rejeitada, uma criana vivendo  custa do Estado, sem pais, sem famlia, sem qualquer pessoa que 
se importasse com a minha aparncia ou se me sentia confortvel em roupas e sapatos. Subitamente, eu me tornava uma pequena princesa. Quem podia me culpar por ter 
medo de piscar e me descobrir de volta no orfanato, despertando de um sonho?
Quase como se isso a afligisse, Celine concordou relutante em fazer uma pausa para o almoo. Sanford levou-nos a um bom restaurante. Disse que eu podia pedir qualquer 
coisa que quisesse do cardpio. Mas

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Celine interveio no mesmo instante e proibiu-me de pedir um enorme e suculento hambrguer.
- Escolha uma salada - determinou ela. - Precisa agora tomar cuidado com a gordura.
- Ela est crescendo - murmurou Sanford. - Vai queimar todas as calorias, Celine.
- O importante no  o que ela vai queimar, Sanford, mas sim o desenvolvimento de bons hbitos. Por favor, no se meta. Sei o que estou fazendo. Eu  que fui treinada 
para ser bailarina, no voc. E no quero que a mime quando eu no estiver presente, Sanford.
Havia um sinal evidente de advertncia em seus olhos. Ele fitou-me e riu, mas foi uma risada fraca, embaraada.
- Gosto de saladas - declarei, para acabar com qualquer discusso.
- Est vendo, Sanford? Ela tem uma tendncia natural para fazer a coisa certa.  de sua natureza. Janet  instintiva, como eu era. Ela  eu. Compreende tudo.
Celine sorriu para mim. Por mais que isso me deixasse contrafeita, eu sabia que podia agrad-la com a maior facilidade. Precisava apenas concordar com qualquer coisa 
que ela dissesse. Acho que comeava a entender por que Sanford parecia to desolado durante todo o tempo.
Sanford queria que dividssemos uma sobremesa, mas Celine no permitiu.
- Ela pode comer sobremesa depois do jantar. Partimos de novo, desta vez para comprar os artigos de uso pessoal que Celine achava que eu precisaria.
- Quero que tome um cuidado especial com seus cabelos, Janet. Sua pele  fundamental, toda a sua aparncia  muito importante. Afinal,  uma artista... uma obra 
de arte natural e viva. Foi assim que aprendi a pensar e acreditar,  assim que quero que voc acredite.
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Quando estvamos numa seo especializada da loja, ela me levou para um lado, a fim de que Sanford no ouvisse a conversa.
- J ficou menstruada, Janet?
- Ainda no - respondi, baixinho.
Era uma coisa que me envergonhava admitir, porque todas as meninas da minha idade no orfanato e na escola, at mesmo um ano mais moas, j haviam menstruado.
Celine me fitou atentamente nos olhos por um longo momento, depois acenou com a cabea.
- De qualquer forma, devemos estar preparadas.
Ela tratou de comprar o que eu precisaria. Ao deixarmos o distrito comercial e seguirmos para a fbrica de vidro de Sanford, eu me sentia bastante cansada. Celine, 
no entanto, continuava a parecer cheia de energia. Falava sem parar sobre as aulas de bal, preparando-me para o primeiro encontro com Madame Malisorf.
- Uma aula de bal  uma seqncia de exerccios graduados com todo cuidado, durando pelo menos uma hora e meia, Janet. Voc vai comear pelos exerccios de alongamento 
e aquecimento usando a barre. Madame Malisorf gosta de passar quase uma hora fazendo isso. Depois, voc passa para o centro do estdio, a fim de trabalhar sem apoio. 
Chamamos essa segunda parte da aula de adage. Consiste de um trabalho lento, enfatizando as posies de sustentao e equilbrio. A terceira parte da aula  chamada 
de allegro. Consiste de um trabalho rpido, combinaes, seqncias de passos, com os grandes saltos e as voltas que tornam o bal to impressivo. Pode se lembrar 
de tudo isso, Janet? Madame Malisorf ficar feliz se lembrar.
Era evidente, pelo seu tom de voz, que eu deveria memorizar o que ela dissera. Comentei que lera alguma
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coisa do livro que ela me dera, e que no deixaria de mencionar para Madame Malisorf.
- Isso  timo. Voc vai aprender mais depressa do que as pessoas esperam. Tenho certeza.
- Chegamos! - anunciou Sanford, orgulhoso. Parecia que, alm de agradar Celine, a fbrica era a coisa mais importante na vida de Sanford. Talvez eu fosse em breve 
acrescentada  lista.
A fbrica era muito maior do que eu imaginara. Havia dezenas e dezenas de carros no estacionamento. Sanford possua tudo aquilo? No era de admirar que o dinheiro 
parecesse no ter a menor importncia, pensei.
- Estou realmente muito cansada, Sanford - declarou Celine subitamente. - Preciso descansar.
- Mas... no posso mostrar a fbrica a Janet e verificar algumas coisas?
O sorriso e o brilho de orgulho haviam desaparecido de seu rosto.
- Leve-me para casa primeiro - ordenou ela, incisiva. - Alm do mais, Janet j viu a fbrica. Por que ela tem de entrar e ficar exposta a toda aquela poeira?
- Poeira? No h poeira l dentro, Celine. Sabe como me orgulho do nosso ambiente industrial.
Ele comeava a se lamuriar.
- Por favor... Entre voc e papai, ouo mais do que o suficiente sobre negcios. Meus pais possuem uma grfica, Janet. Por favor, Sanford, vamos embora.
Pude ver que ele comprimia os dentes, enquanto a fitava. Depois, olhou para a fbrica e deu de ombros.
- Apenas pensei que poderamos, j que estvamos aqui...
Sanford j desistira. Falava como um rfo que acabara de ser preterido por outro casal de pais em Potencial.
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- Ela no est apenas nos visitando, Sanford. Vai morar conosco. Haver outras ocasies
-Claro. Tem toda razo, querida. Vamos para casa.
Ele deu a partida no carro, com um suspiro. E a minha escola? No pude deixar de pensar nisso No deveramos ir at l agora?
Celine deu a impresso de que lia meus pensamentos.
Sanford a levar  escola pela manh e ser matriculada, Janet. Quando voltar para casa, encontrar Madame Malisorf  sua espera.
O rosto tornou a irradiar aquela luz estranha, o mesmo excitamento de antes, quando ela acrescentou:
- E ento comearemos tudo de novo.
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Cinco

Mais tarde, naquela noite, quando Celine comeou a me interrogar sobre o que eu lera no livro de bal, tive a sensao de que j fora matriculada numa nova escola. 
Ela era como uma professora, corrigindo, explicando, determinando mais leituras. Queria ter certeza de que eu conhecia todos os nomes famosos no bal.
- No contei nada a Madame Malisorf sobre seu passado, Janet. Ela no precisa saber que voc passou toda a sua vida num orfanato. Pode ser uma parente distante que 
eu resolvi adotar.
Era a primeira vez que ela dizia alguma coisa que me fazia sentir vergonha do lugar de onde eu vinha. Lembrei da primeira vez em que ouvira algum se referir a mim 
como uma rf. Aconteceu no playground na escola. Eu estava na quarta srie e havamos sado para o recreio. Havia uma pequena calada que as meninas usavam para 
pular amarelinha. Costumvamos nos dividir em duplas. Quando uma das meninas, Blair Cummings, teve de ficar comigo, queixou-se no mesmo instante:
- No quero fazer dupla com Janet. Ela  muito pequena. Alm disso,  uma rf.
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As outras olharam para mim como se eu tivesse uma verruga no nariz. Lembro que fiquei com o rosto vermelho, as lgrimas pareciam gotas fervendo por trs das plpebras. 
Virei-me e sa correndo. Mais tarde, quando nossa professora, a srta. Walker, me encontrou sentada sozinha num canto do playground, perguntou se eu estava doente.
- Estou, sim. - Era a maneira mais conveniente de escapar de novas zombarias. - Sinto dor de barriga.
Ela me mandou para a enfermaria. Recebi a ordem de ficar deitada quieta, depois que a enfermeira tirou minha temperatura, embora ela constatasse que eu no tinha 
febre. Suponho que era por isso que as pessoas me julgavam uma menina sempre doente. Cada vez que eu me sentia menosprezada, tinha uma "dor de barriga", uma boa 
desculpa para desaparecer. Ser rf me deixava com vontade de me tornar invisvel.
- A maioria das alunas de Madame Malisorf vem das melhores famlias - continuou Celine - pessoas de cultura que criaram suas crianas num mundo de msica, arte e 
dana. Elas tm uma vantagem. Mas no se preocupe, querida.
Celine inclinou-se para a frente, encostou a mo em meu rosto.
- Voc tem a mim, o que  uma vantagem maior do que qualquer uma das mais afortunadas jamais teve.
Depois do jantar, sentei com ela e Sanford. Ouvi as descries de Celine de alguns dos bals em que se apresentara.
- Madame Malisorf me comparou a Anna Pavlova. J ouviu falar dela?
Eu nunca tinha ouvido falar,  claro. Ela balanou a cabea e suspirou.
-  um crime, um autntico crime, que algum como voc, algum que  um diamante bruto, tenha
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tido tanta coisa negada, tanta oportunidade perdida. Graas a Deus que eu a vi naquele dia.
Ningum jamais sugerira que eu tivesse qualquer tipo de talento, muito menos pensara em mim como um diamante bruto. Quando deixei Celine naquela noite e fui para 
o meu quarto, parei na frente do espelho, de sapatilhas e malha, para estudar meu corpo pequeno, na esperana de perceber alguma coisa que me convencesse de que 
era especial. Tudo o que vi, no entanto, foi uma menina subdesenvolvida, com olhos grandes e assustados.
E me deitei naquela noite apavorada com o que poderia acontecer no futuro.
Na manh seguinte, depois do caf da manh, Sanford levou-me  Peabody School, uma escola particular. A diretora era a sra. Williams. Era alta, mas no muito magra, 
com cabelos castanho-claros, cortados e arrumados com a maior elegncia. Achei que seu sorriso era cordial, at caloroso. Era muito diferente do diretor da minha 
antiga escola, o sr. Saks, que parecia sempre mal-humorado e infeliz, sempre ansioso em castigar os alunos pela violao de uma norma ou outra. Muitas vezes ele 
se postava nos corredores como um gavio, espreitando e esperando. Vivia entrando e saindo dos banheiros, na expectativa de surpreender algum fumando.
A Peabody era uma escola muito menor, tambm mais limpa e mais nova. Fiquei surpresa ao ser levada a uma sala em que havia oito outros alunos, trs meninos e cinco 
meninas. Para a minha srie havia apenas uma professora, a srta. London, que ensinava ingls e histria, e um professor, o sr. Wiles, que ensinava matemtica e cincias. 
Nossa professora de educao fsica, sra. Grant, tambm ensinava educao sanitria. Descobri que havia apenas 257 alunos em toda a escola.
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- As turmas so to pequenas que voc sabe que recebe uma ateno especial aqui - comentou Sanford.
Ele tinha razo. Todos os professores eram simpticos e tinham tempo para explicar o que eu precisava aprender para alcanar os colegas.
O que eu mais gostei, porm, foi ter sido matriculada e apresentada aos outros alunos como Janet Delorice. Ningum foi informado de que eu era adotada, que havia 
sido uma rf antes. Todos presumiram que eu fora transferida de outra escola particular. No falei nada para pensarem que podia ser diferente.
Achei que a maioria das meninas era metida a besta, assim como os meninos,  exceo de um, Josh Brown. Ele no era muito mais alto ou maior do que eu, mas me ofereceu 
o sorriso mais efusivo e o cumprimento mais cordial quando sentei ao seu lado, na minha primeira aula. Depois, ele saiu da sala comigo, falou sobre a escola e os 
professores. A cor dos seus cabelos era to parecida com a minha que podamos ser confundidos como irmo e irm. Mas sua aparncia no era parecida com a minha. 
Josh tinha olhos castanho-escuros, um rosto redondo com lbios mais firmes, um nariz que terminava numa ponta. Eu o achava bonito quando sorria, mas no tive coragem 
de dizer a ele.
- Seus pais acabaram de se mudar para c? - perguntou ele, no intervalo entre as aulas.
- No. Meu pai  dono de uma fbrica de vidro. Nesse momento, cheguei  concluso de que no teria como evitar a informao de que viera de um orfanato.
Mas Josh pensou por um momento e acenou com a cabea.
- Sei onde fica.
Ele parecia satisfeito com a resposta, e me senti feliz em mudar de assunto.
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Mais tarde, naquele mesmo dia, as meninas fizeram mais perguntas. Percebi que uma delas, Jackie Clark, estava desconfiada.
- Voc no estudava numa escola particular antes, no  mesmo? - insistiu ela.
-No.
Tive de admitir, embora com a maior relutncia. E pensei que precisava inventar uma histria que explicasse tudo.
- Voc era uma criana problema? - perguntou Betty Lowe.
-No.
- Nunca se meteu em encrencas? - continuou Jackie.
Sacudi a cabea.
- Como so suas notas? Muito ruins?
A pergunta foi de Betty, acompanhada por um aceno de cabea e um sorriso, como se torcesse para que fossem mesmo pssimas.
- No. Tenho boas notas.
Elas trocaram olhares, confusas e cticas.
- Por que nunca estudou antes numa escola particular? - indagou Jackie.
Dei de ombros.
- Meus pais s decidiram agora - respondi, deliberadamente vaga.
- Eu preferia estudar numa escola pblica - admitiu Betty.
- Eu no - declarou Jackie.
As duas se absorveram em sua discusso e me esqueceram por um momento. Foi nessa ocasio que Josh se ofereceu para me mostrar mais alguma coisa da escola e nos afastamos. 
Gostei tanto do meu primeiro dia na nova escola, talvez por causa de Josh, que quase esqueci que Madame Malisorf estaria  minha espera
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quando voltasse para casa. Ao final das aulas, Sanford me aguardava na frente da escola.
- Pode haver ocasies em que terei que mandar um dos meus empregados busc-la, Janet. Quem quer que seja, vai ser muito simptico. E no precisa dizer nada a Celine. 
Ela nunca entende por que s vezes o trabalho precisa vir em primeiro lugar. Gosto de tirar uma folga para vir peg-la, mas no poderei fazer isso todos os dias. 
No se preocupe. Celine no vai descobrir. Ser o nosso pequeno segredo.
Tentei no me preocupar com a idia de haver mais um segredo entre ns... outro segredo escondido de Celine. Fiz um esforo para me concentrar no percurso. Havia 
uma obra na rua entre a casa e a escola. Ficamos retidos num engarrafamento cerca de um quilmetro e meio depois da escola. No achei to terrvel assim, mas Sanford 
foi ficando cada vez mais nervoso. No parava de murmurar "Droga! Droga!", criticando-se por no ter feito um desvio. Mas finalmente passamos pelo engarrafamento. 
Ele passou a guiar muito mais depressa. No pude deixar de pensar no acidente que Sanford sofrera com Celine. As rodas rangeram quando entramos no caminho da casa, 
at que o carro parou abruptamente junto da porta da frente.
Saltei com meus livros novos nos braos e segui apressada com ele at a porta. Celine esperava no vestbulo, sentada na cadeira de rodas. Fitou-nos com a cara amarrada, 
como se estivesse esperando ali h horas.
- Por que se atrasaram tanto? - perguntou ela, assim que entramos.
- Uma obra na estrada - explicou Sanford. - Houve...
- No tenho tempo para desculpas, Sanford. Pode voltar para a sua preciosa fbrica.
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Ela falou em tom rspido, quase rangendo os dentes. Virou-se para mim, com uma expresso furiosa.
- Janet, Madame Malisorf est esperando no estdio. Largue seus livros... e venha comigo.
Larguei os livros na mesa do vestbulo, fitei Sanford, com os olhos arregalados e assustados, depois fui atrs de Celine. Meu corao batia forte quando entrei no 
estdio. A primeira coisa que me espantou foi descobrir como Madame Malisorf era pequena. Pela maneira como Celine a descrevera, eu imaginara uma figura alta e imponente, 
pelo menos to impressiva quanto a sra. McGuire. Madame Malisorf parecia no ter mais que um metro e meio de altura. Os cabelos eram grisalhos, o rosto cheio de 
rugas, mas o corpo era esguio e atltico. Dava a impresso de ser uma jovem que envelhecera prematuramente. Os olhos me avaliaram, enquanto eu me aproximava, por 
trs de Celine.
Madame Malisorf tinha os cabelos presos num enorme coque. Usava uma malha preta e sapatilhas como as que Celine comprara para mim. Os lbios eram vermelhos, os olhos 
pareciam manchas de carvo no rosto muito plido.
- Janet, esta  Madame Malisorf - disse Celine. Fiquei aturdida com seu tom de voz, pois no parecia mais zangada. Era como se a passagem pela porta do estdio a 
tivesse transformado.
- Ol - murmurei, com um sorriso tmido.
Ela me fitou sem dizer nada, depois virou-se para Celine.
- Sabe que no gosto de pr as meninas em sapatilhas de pointe at completarem treze anos, Celine, no importa h quanto tempo estejam estudando.
- Ela far treze anos muito em breve, Madame. Madame Malisorf sorriu com um evidente ceticismo.

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- Ela parece no ter mais que nove ou dez anos.
- Sei disso. Ela pode ser pequena, mas  muito preciosa e talentosa.
-  o que veremos. - Madame Malisorf virou-se para mim. - Quero que voc ande at a parede do outro lado e volte.
Olhei para Celine, que sorriu e acenou com a cabea em encorajamento. Fui at a parede, virei-me e voltei.
- E ento, Madame? - perguntou Celine, na maior ansiedade.
Era bvio que ela esperava que Madame Malisorf concordasse com sua avaliao.
- Ela tem uma boa postura e equilbrio. O pescoo parece um pouco fraco, mas isso ser logo retificado. Fique na ponta dos ps.
Obedeci. Quando comecei a baixar, Madame Malisorf ordenou, a voz spera:
- No! Continue assim at eu mandar baixar. Fiquei esperando. As batatas das pernas comearam a tremer e doer, mas permaneci na ponta dos ps. Senti que o rosto 
estava ficando todo vermelho.
- Estenda os braos. Fiz isso tambm.
- Mantenha a cabea erguida, olhando para a frente.
Parecia alguma espcie de tortura. Mas como Celine observava, com aquele seu sorriso, fiz um esforo para agentar firme. Todo o meu corpo passou a tremer. Esperava 
que fosse mais fcil nas sapatilhas de pointe.
- Relaxe - disse Madame Malisorf. - Boa fora. E um bom equilbrio para uma menina sem qualquer treinamento. Talvez voc tenha razo, Celine, mas ser preciso um 
tremendo esforo. Quanto ao trabalho de
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pointe, veremos o tempo que ser necessrio para apront-la.
Ela virou-se para mim e ordenou:
- Vista o traje de exerccio e volte em dez minutos.
Dez minutos outra vez. Celine acenou com a cabea para mim. Sa apressada, subi a escada para meu quarto, vesti a malha. Celine tinha razo sobre a maneira como 
Madame Malisorf conduzia sua aula. Ela fazia a demonstrao, depois me punha para ensaiar um exerccio depois de outro na barre. Repetio era a palavra mgica. 
Ela gritava ordens e esperava que eu obedecesse imediatamente. Se eu fazia uma pausa para recuperar o flego, ela soltava um suspiro profundo e dizia "E ento?" 
Celine tossia de leve, da porta, de onde acompanhava tudo. Repeti cada movimento tantas vezes que acabei pensando que poderia fazer os exerccios durante o sono. 
Ao final, Madame Malisorf mandou que eu me afastasse da barre e trabalhasse em ficar com os ps virados para fora.
- Por vrios motivos, relacionados com a estrutura da articulao do quadril - explicou ela - uma bailarina pode obter maior extenso se girar a perna para fora, 
longe de sua posio usual. Esse giro lhe permitir mover-se para o lado com a mesma facilidade que para trs e para a frente. Essa posio  conhecida como...
- Giro lateral - apressei-me em dizer, querendo impression-la com meu conhecimento.
- Isso mesmo.
Mas ela no parecia surpresa, nem sequer satisfeita. Em vez disso, Madame Malisorf parecia contrariada por eu ter concludo a frase. Pelo reflexo no espelho, percebi 
que os olhos de Celine transmitiam uma advertncia. Apressei-me em assumir a posio que fora descrita no livro.
- No! No! - gritou Madame Malisorf. - No
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comece pelos tornozelos. No force os ps para essa posio e deixe tudo acompanhar da para cima. O giro lateral comea na articulao do quadril.
Ela me pegou pela cintura e me fez repetir o movimento vrias vezes, at se sentir satisfeita. Ainda era muito cedo no treinamento para iniciarmos os pulos. Por 
isso, voltamos  barre para mais exerccios.
- Ter que ser bastante forte para poder tentar os movimentos que lhe ensinarei - declarou Madame Malisorf confiante.
Quando terminamos por aquele dia, eu me sentia toda dolorida, em particular nos quadris e pernas. A dor era to intensa em alguns pontos que me deixava com lgrimas 
nos olhos. Mas no ousei emitir uma nica palavra de queixa. Durante todo o tempo em que trabalhei com Madame Malisorf, Celine ficou assistindo da cadeira de rodas, 
acenando com a cabea e sorrindo a cada coisa que a professora de bal dizia.
- Ela ser maravilhosa, absolutamente maravilhosa, no  mesmo, Madame Malisorf? - perguntou Celine, ao final da sesso.
- Veremos - respondeu Madame Malisorf, os olhos frios e crticos.
- J providenciei as sapatilhas de pointe.
- No podemos apress-la, Celine - declarou Madame Malisorf, rspida. - Voc, entre todas as pessoas, devia saber disso.
- No vamos nos precipitar, mas tenho certeza de que ela progredir depressa - garantiu Celine, inabalvel. - Cuidarei disso. Ela vai praticar e praticar, Madame.
- Espero que sim. - A professora olhou para mim. - No poderia se tornar uma bailarina apenas com as nossas sesses.
Ela pensou por um momento, depois acrescentou:
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- Acho que na prxima vez trarei algum. - Madame Malisorf virou-se para Celine. -  bom ter outra pessoa para trabalhar junto.
- Est bem - murmurou Celine. - Obrigada. Amanh?
- Amanh - confirmou Madame Malisorf, comeando a recolher suas coisas.
Amanh? Eu teria aulas todos os dias? Quando meu pobre corpo teria uma chance de se recuperar?
Assim que Madame Malisorf se retirou, Celine impulsionou a cadeira de rodas at o lugar em que eu havia ficado, os olhos ardendo de excitamento.
- Ela gosta de voc. Tenho certeza. Eu a conheo h muito tempo. Se ela achasse que voc no tinha potencial, simplesmente recusaria ser sua professora de bal. 
Madame Malisorf no perde tempo com alunas medocres. A sua oferta de trazer uma de suas alunas especiais... voc nem imagina o que isso significa, Janet. Deve ser 
por isso que no se sente to excitada quanto deveria estar. Tem de ficar excitada, Janet. No entende? Madame concorda comigo. Voc vai ser uma prima ballerina. 
O que  maravilhoso, absolutamente maravilhoso!
Celine bateu palmas. Tentei sorrir, apesar de todas as minhas dores. O que a levou a soltar uma risada.
- No se preocupe com as dores, Janet. Tome um banho de gua quente na banheira antes do jantar. No ficar mais dolorida depois de algumas sesses. Vai ver s. 
Ah, mal posso esperar para contar a Sanford sobre a aula! Eu tinha razo. Sabia disso. Tinha toda razo.
Ela virou a cadeira e impulsionou-a para a porta.
O que eu fizera para torn-la to confiante, especulei, alm de desfilar pelo estdio, erguendo-me na ponta dos ps, equilibrando-me e realizando alguns exerccios 
to vigorosos que me deixaram com a sensao de ter sido atropelada por um caminho?
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Sa do estdio e subi para o meu quarto, muito mais devagar do que fizera no dia anterior. S depois que entrei no quarto e fechei a porta  que me permiti o primeiro 
gemido. Abri a gua quente na banheira e imergi os msculos doloridos. Mais tarde, ao jantar, meu trabalho no estdio com Madame Malisorf foi o tema exclusivo de 
Celine. Sanford ainda tentou me fazer perguntas sobre o meu primeiro dia na escola, mas Celine interrompia a todo instante, com conselhos sobre esse e aquele exerccio 
na barre.
- Eu gostaria que voc pudesse estar presente para v-la, Sanford. Houve momentos em que senti que olhava para mim mesma no espelho, quando minha me costumava vir 
me assistir tambm.
No pude deixar de pensar quando conheceria meus novos avs, mas no houve qualquer referncia a uma visita.
Celine queria que eu permanecesse em sua companhia depois do jantar, a fim de conversarmos mais sobre o bal. Sanford, porm, lembrou-a de que eu tinha muitos deveres 
da escola para fazer.
- Deveres da escola... - repetiu ela, desdenhosa. - Algum dia, muito em breve, ela ter uma tutora pessoal, como aconteceu comigo.
- Quer dizer que parou de ir  escola? - perguntei.
- Claro. O bal era tudo para mim. Ser para voc tambm, Janet. Vai ver s.
Apenas o bal e uma tutora, durante todo o tempo. Mas o que dizer de amigos, festas e, acima de tudo, namorados? Acho que no me mostrei muito entusiasmada com a 
perspectiva, porque Celine franziu o rosto e indagou:
- Qual  o problema?
- Ela est muito cansada, Celine - interveio
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Sanford. - Foi um dia comprido... um dos mais longos da vida de Janet, eu diria.
Celine estudou-me por um segundo, depois sorriu.
- Tenho certeza de que foi mesmo. Pode ir fazer os deveres, querida, e depois tenha um sono reparador.
Fui dispensada e voltei para o meu quarto. Por algum tempo, fiquei sentada  mesa, imvel, olhando para a pequena montanha de leituras que tinha de fazer. Ganhar 
uma nova casa e uma nova famlia no era to fcil quanto eu sempre sonhara que seria.
Quando me estiquei contra o encosto da cadeira, as costas e as batatas das pernas protestaram em dor. Contemplei-me no espelho e soltei um gemido. Tinha uma notcia 
para o meu corpo cansado.
- Vai sentir ainda mais dor!
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Seis

Madame Malisorf cumpriu sua promessa. No dia seguinte, quando Sanford me trouxe da escola, havia um garoto mais velho esperando no estdio com ela. No sei por que, 
mas esperava que ela trouxesse uma menina para tomar aula comigo. A viso de um garoto usando malha me pegou de surpresa. Fiquei parada ali, olhando para ele, aturdida. 
Devia ter pelo menos quinze ou dezesseis anos. Era, no mnimo, quinze centmetros mais alto do que eu, os cabelos muito pretos, olhos que brilhavam como nix. Tinha 
uma pele escura, mas a boca era to vermelha que dava a impresso de que usava batom. Parecia no haver um grama de gordura em seu corpo.
Os ombros eram musculosos, as pernas ainda mais musculosas. A malha ajustava-se ao corpo como uma segunda pele, de tal forma que no deixava muito espao para a 
imaginao. O sexo era com freqncia o tema das conversas das meninas mais velhas no orfanato. Eu no podia deixar de ouvir, porque queria conhecer suas experincias. 
Pelo que elas me disseram diretamente e as coisas que ouvi de passagem, eu pensava que sabia de tudo o que havia para saber em minha idade, apesar
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de no ter uma irm mais velha ou me para me explicar o que faziam os passarinhos e as abelhas. S que eu nunca estivera na mesma sala com um garoto mais velho 
que parecesse to... to nu. No pude deixar de corar. Percebi no mesmo instante que meu embarao o irritava, e por isso me apressei em desviar os olhos.
- Este  Dimitri Rocmalowitz - informou Madame Malisorf. -  um dos meus melhores alunos e muitas vezes instrui os novos nos elementos bsicos. Claro que ele ainda 
tem muito a aprender, mas j  um bailarino talentoso e preciso. Quando ele lhe disser para fazer alguma coisa, deve trat-lo com o mesmo respeito e considerao 
que me dispensaria. Entendeu, Janet?
- Entendi, Madame - respondi, ctica.
Afinal, Dimitri parecia jovem demais para ser um bailarino to extraordinrio. Seria estranho receber instrues dele.
- Observar algum que conhece o bal como Dimitri vai ajud-la a compreender o que se espera de voc - continuou ela. - Hoje e daqui por diante, quero que comece 
as sesses usando estes meies para aquecer as pernas.
Ela me entregou os meies de l, bem grossos, num tom prpura brilhante.
Depois que os pus, fomos para a barre. Notei que Celine levara a cadeira de rodas para um canto do estdio, onde permaneceu, as mos cruzadas no colo, assistindo.
Dimitri iniciou um exerccio de aquecimento. Por um momento, no pude fazer outra coisa que no observ-lo. Ele no parecia tmido ou nervoso por danar na nossa 
frente. Era como se estivesse em seu prprio mundo. As pernas se movimentavam com a maior graa e rapidez, enquanto ele mantinha o corpo numa linha vertical perfeita.
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- Comece - ordenou Madame Malisorf.
Aproximei-me da barre, a alguns passos de Dimitri.
- No, no, no aperte tanto a barre - disse ela. - Observe como Dimitri a segura apenas para o equilbrio.
Tentei relaxar. Iniciamos uma srie de exerccios, que incluam plis, tendus e glisss, tudo o que ela me ensinara no dia anterior. Da, passamos para os fondus 
e depois os ronds de jambe  terre. Primeiro, Madame Malisorf descrevia o que queria. Depois, Dimitri fazia uma demonstrao, sempre com uma expresso orgulhosa, 
como se danasse para uma audincia de milhares de pessoas. Eu comeava em seguida, quase sempre interrompida por Madame Malisorf:
- No, no, no. Dimitri, de novo. Observe-o, Janet. Estude a maneira como ele mantm as costas e o pescoo.
s vezes eu precisava de tanto tempo para satisfaz-la que quase chegava s lgrimas antes que ela me permitisse passar para outra coisa, sempre com uma declarao 
condicional:
- Voltaremos a trabalhar nisso mais tarde.
No havia nada que eu no tivesse de trabalhar mais, aparentemente por toda a eternidade, pensei.
Quando chegamos ao giro lateral, a dor nos quadris foi to intensa que quase gritei. Tinha certeza de que o rosto revelava todas as minhas novas dores. S que Madame 
Malisorf parecia implacvel. No momento em que eu pensava que haveria uma curta pausa, em que poderia recuperar o flego, ela determinava alguma coisa nova, com 
Dimitri demonstrando, para eu tentar imitar seus movimentos em seguida.
A sesso durou mais tempo que a do dia anterior. Eu suava demais. Sentia a umidade na malha, agora grudada em minha pele. Madame Malisorf finalmente nos concedeu 
uma pausa. Arriei no cho. Ela foi conversar
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com Celine. Dimitri fitou-me pela primeira vez desde que eu entrara no estdio.
- Por que voc quer ser uma bailarina? - perguntou ele, com uma rispidez na voz que me fez sentir culpada.
- Minha me acha que devo ser - respondi, na defensiva.
-  esse o seu motivo?
Dimitri sorriu. Enxugou o rosto com sua toalha. Depois, jogou a toalha encharcada para mim.
- Voc est pingando.
Encontrei uma rea seca na toalha, enxuguei o rosto e a nuca.
- Creio que vou gostar - comentei, cautelosa. Ele tornou a sorrir.
- O bal exige absoluta e completa devoo, um empenho total da mente, corpo e alma. Torna-se sua religio. Uma professora como Madame Malisorf  a sua alta sacerdotisa, 
sua deusa, as palavras que ela diz a voc viram o evangelho. Tem de pensar e andar como uma bailarina, comer e respirar como um bailarina. No h nenhuma outra coisa 
que seja nem pela metade to importante. E s assim voc talvez tenha uma chance de ser uma verdadeira bailarina.
- No espero me tornar uma bailarina famosa. Era difcil entender por que aquele garoto fazia com que eu sentisse necessidade de me defender... ainda mais quando 
no tinha certeza se queria mesmo me tornar uma bailarina. Ele lanou um rpido olhar para Madame Malisorf e Celine, antes de voltar a me fitar.
- Nunca deixe que Madame Malisorf a oua fazer um comentrio to indeciso e derrotista. Ela vai virar as costas e deixar a sala para sempre.
Meu corao, j disparado dos exerccios, parou de
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repente... e logo voltou a bater ainda mais forte. Celine ficaria arrasada. Passaria a me odiar.
- Madame Malisorf lhe dir o que voc vai ser ou no vai ser. - Dimitri balanou a cabea, acrescentou um comentrio desdenhoso: - Outra criana rica mimada cujos 
pais acham que  especial.
- No sou mimada! - protestei, quase em lgrimas.
- No ? Quantas crianas da sua idade tm um estdio como este em sua casa e uma professora que custa milhares de dlares por semana?
- Milhares?
Engoli em seco, atordoada.
- Isso mesmo, sua pequena idiota. No sabe quem ela ? - Ele soltou um grunhido. - No vai durar muito. D para sentir.
Dimitri tornou a balanar a cabea.
- Vai durar, sim. Farei tudo o que tiver de fazer... e farei muito bem.
Eu no queria dizer a ele que pensava que minha vida dependia disso; que a mulher que eu queria que me amasse como uma me tinha seu corao empenhado em meu sucesso 
como uma bailarina; e que eu devotaria toda a minha fora e energia para faz-la feliz.
- Minha me ia se tornar uma famosa bailarina, at que sofreu um terrvel acidente de carro. Por isso  que temos este estdio. No estou aqui s por mim.
Ele sorriu, ainda desdenhoso.
- No deveria olhar de cima algum que est comeando s porque  um bom aluno de bal.
O sorriso agora foi de satisfao.
- Como eu poderia olhar para voc de outra forma que no de cima? Qual  a sua altura? Um metro e quarenta?
Dessa vez as lgrimas escaparam pelos cantos dos
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meus olhos. Virei as costas a Dimitri e apressei-me em enxug-las.
- Voc tem realmente quase treze anos?
A voz de Dimitri abrandara um pouco. Achei que havia se arrependido de me ter magoado.
Eu me preparava para responder quando Madame Malisorf voltou e me disse para tirar os meies. Era tempo de me afastar da barre e repetir tudo o que fizramos, s 
que dessa vez sem a ajuda da barre. Eu no podia deixar de me sentir exausta e de cometer erros. Sabia que parecia muito desajeitada e inepta. Cada vez que Madame 
Malisorf me corrigia, Dimitri balanava a cabea e sorria desdenhoso. Depois, como se quisesse reiterar seu menosprezo, ele fazia o que ela pedia com absoluta perfeio, 
exibindo-se, as voltas to rpidas que parecia um borro. De vez em quando ele saa dos rodopios e dava um salto que parecia desafiar a gravidade, caindo sem fazer 
qualquer barulho. Sempre que ele demonstrava alguma coisa para mim, Madame Malisorf gritava:
-  isso.  exatamente isso o que eu quero. Trate de estud-lo. Observe-o. Algum dia voc deve ser to boa quanto Dimitri.
O rosto dele assumia uma expresso de orgulho arrogante, enquanto estufava o peito em minha direo.
Eu tinha vontade de dizer que preferia ver um peixe morto flutuando em nosso lago, mas prendia a respirao para as palavras no sarem... e tentava de novo. A sesso 
finalmente terminou, um ato de misericrdia. Celine bateu palmas e avanou na cadeira de rodas para o centro do estdio.
- Bravo, bravo! Um incio maravilhoso. Obrigada, Madame Malisorf. Muito obrigada. E voc, Dimitri, me faz ter vontade de sair desta cadeira, esquecer as pernas entrevadas 
e danar em seus braos.
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Ele se inclinou numa reverncia.
- Madame Malisorf me contou como danava maravilhosamente e a tragdia que foi para o bal quando sofreu o acidente, sra. Delorice.
-  verdade... - Os olhos de Celine exibiram de repente aquela expresso distante. Depois, ela sorriu para mim. - Mas minha filha far o que no pude mais fazer. 
No concorda?
Dimitri olhou para mim.
- Talvez - respondeu ele, com um sorriso torto. - Se ela aprender a ser dedicada, devotada e obediente.

- Ela aprender - garantiu Celine.
Perguntei-me se a sua ordem me transformaria numa bailarina com a mesma facilidade com que convertera um dia escuro e nublado em claro e ensolarado.
Tentei no parecer to cansada e dolorida quanto me sentia, mas Dimitri percebeu tudo atravs de minha mscara, oferecendo-me um sorriso cruel. Assim que entrei 
em meu quarto, fui me jogar na cama e deixei que as lgrimas escorressem.
Nunca serei a bailarina com que Celine sonha, pensei. Talvez nunca me torne a filha que ela deseja, mas prefiro morrer tentando do que desapont-la.
Mais uma vez, toda a conversa durante o jantar concentrou-se na aula de bal e no meu progresso. Celine falou tanto que mal comeu ou respirou entre as frases. Sanford 
tentou conversar sobre outras coisas, mas ela se recusou a mudar de assunto. Ele sorria para Celine e para mim, com uma expresso divertida. Depois, Sanford me levou 
para um lado e comentou que ha muito tempo Celine no se mostrava to animada e alegre.
- Obrigado por fazer Celine to feliz, Janet. Voc  um acrscimo maravilhoso  nossa famlia. Obrigado por simplesmente ser quem voc .
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Ele sorriu de uma maneira espontnea e sincera. No pude deixar de pensar que aquele sorriso ficava muito melhor do que o sorriso tenso e sombrio que Sanford costumava 
exibir na presena de Celine. Ela nos surpreendeu no corredor e notou o sorriso radiante do marido.
- Por que est sorrindo como um idiota, Sanford? O que vocs dois conversavam? - Seus olhos se contraram subitamente, tornaram-se frios e ameaadores. - Janet, 
v para o seu quarto. Voc precisa descansar.  evidente que vai precisar de toda a ajuda que puder obter para acompanhar Dimitri.
No pude deixar de sentir que Celine me repreendera. Subi para o meu quarto e desmaiei de cansao na cama.
As duas primeiras semanas de minha nova vida voaram to depressa que pareciam apenas horas. Tive certeza de que era assim porque cada um e todos os momentos do meu 
dia eram cheios de coisas por fazer. Ao contrrio do orfanato, no havia longas horas de vazio para preencher com distraes e sonhos. Agora eu fazia os deveres 
da escola, tinha aulas de bal, recuperava-me do esforo fsico, e comeava tudo outra vez. Ia dormir cedo e comia apenas a rigorosa dieta de bailarina projetada 
por Celine. Embora pensasse que ainda era muito cedo para constatar mudanas concretas, tinha a impresso de que minhas pernas j estavam mais fortes, os pequenos 
msculos mais resistentes. Pensei at que j fazia o que Dimitri insistia que eu teria de fazer: andar e me movimentar como uma bailarina, mesmo quando no me encontrava 
no estdio.
Porque o tempo depois da escola era dedicado s aulas de bal, era difcil fazer novas amizades. Ainda
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por cima, Celine no permitia que eu entrasse em equipes ou clubes.
- A ltima coisa que precisamos agora  que voc sofra uma leso em alguma brincadeira - comentava ela.
Celine tentou at me tirar da aula de ginstica, mas a escola no permitiu. Sanford argumentou que isso no iria interferir com as aulas de bal.
- Claro que vai atrapalhar! - insistiu Celine. - No quero que ela desperdice sua energia fsica em bobagens.
- No  uma bobagem, querida - ele ainda tentou explicar.
Mas Celine no queria saber de nada. No conseguira impor sua vontade, o que a deixava irritada.
- No faa mais do que o necessrio - aconselhoume ela. - Faa tambm o que eu costumava fazer sempre que podia: alegue que est com clicas menstruais.
- Mas ainda no tive a primeira menstruao.
- E da? Quem vai saber? - Ao ver minha expresso, ela acrescentou: - A mentira  aceitvel se  pela causa certa. Nunca a castigarei por fazer alguma coisa que 
proteja seu bal, Janet. Nunca, mas nunca mesmo, no importa o que possa acontecer.
Seus olhos se tornaram to grandes e brilhantes que me assustaram. Eu me perguntava para onde ela ia sempre que assumia aquela expresso.
Como a maioria dos meninos e meninas do orfanato na minha idade, eu costumava fantasiar sobre as pessoas que se tornariam meus pais. Povoava a cabea com coisas 
divertidas, como piqueniques, passeios no parque de diverses. Via-me segurando a mo de meu pai ao passar pelos portes da Disneylndia. Imaginava festas de aniversrio 
enormes e alegres. At sonhava em ter irmos e irms.
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Como parecia vazia e diferente aquela casa enorme em que eu vivia agora, quando comparada  casa dos meus sonhos.  verdade que eu tinha as coisas mais caras, um 
quarto maior do que jamais vira, havia um lago e lindos jardins na propriedade. Mas no existia a intimidade de famlia, as viagens, diverses e brincadeiras que 
eu imaginara. Sanford queria passar mais tempo comigo, me levar  fbrica, mas Celine sempre arrumava um motivo atrs de outro para evitar a visita. Ela acabou compreendendo 
que seus argumentos eram absurdos, o que a fez mudar de idia. Fui para o trabalho com Sanford num sbado, vi as mquinas e os produtos. Conheci alguns operrios 
e executivos. Fiquei espantada ao verificar como ele se mostrava feliz e ansioso em me mostrar tudo; e me senti triste quando nosso momento a ss terminou. Creio 
que Sanford sentiu a mesma coisa... na viagem de volta para casa, nenhum dos dois falou. Pela primeira vez naquele dia, o clima entre ns era desolado.
Ao chegarmos em casa, comecei a fazer um relato sobre o dia para Celine. Mas ela fez uma careta, como se sentisse dor, e declarou:
- Precisamos da fbrica para podermos desfrutar os luxos da vida. O que no precisamos  reconhecer sua existncia. E, certamente, no podemos permitir que ocupe 
um momento sequer de nosso tempo ou pensamento.
- Mas algumas coisas feitas na fbrica so lindas, no  mesmo? - insisti.
- Suponho que sim, de uma maneira vulgar - admitiu Celine.
No entendi direito o que ela quis dizer com isso, mas percebi que o comentrio desagradou a Sanford. Celine no voltou a ficar animada e feliz at que Sanford anunciou 
que comprara ingressos para a apresentao de The Four Temperaments, no Metropolitan Ballet.
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- Agora, Janet, voc vai assistir  sua primeira apresentao de bal de verdade, e compreender o que eu quero que faa e se torne!
Celine mandou que Sanford nos levasse a uma loja para me comprar um vestido elegante. Escolhi um vestido de tafet azul. Celine at exigiu que Sanford me comprasse 
jias, um par de brincos de safira e um colar combinando.
- Ir ao bal  uma coisa muito especial - explicou Celine. - Todas as pessoas usam suas melhores roupas. Voc vai ver.
Ela me levou a um salo de beleza onde arrumaram meus cabelos. Tambm me ensinou a aplicar a maquilagem direito. Quando me contemplei no espelho, fiquei espantada 
ao descobrir como parecia adulta.
- Quero que voc se destaque, que seja notada, que todos olhem e pensem: "L est uma estrela em ascenso, uma pequena princesa."
Tive de admitir que finalmente fui absorvida pelo mundo de Celine. Permiti-me acalentar os mesmos sonhos, pensar em mim como uma celebridade, meu nome nas marquises. 
Quando vi o teatro e todas aquelas pessoas ricas e elegantes na audincia, tambm fui dominada pelo excitamento. O bale comeou. Olhei para minha nova me, ao meu 
lado, na cadeira de rodas, vi a felicidade e o brilho radiante em seus olhos. Senti que saltava e me elevava pelo ar ao seu lado. Durante o primeiro ato, ela inclinou-se 
pela escurido, at encontrar minha mo. Quando me virei, Celine sussurrou:
- Algum dia, Janet, Sanford e eu estaremos vindo aqui para assisti-la no palco.
Uma pausa e ela repetiu, perdida em seus sonhos:
- Algum dia...
E ousei acreditar que podia ser verdade.
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Sete

Embora quase no ouvisse referncias a eles, eu no podia deixar de me perguntar quando conheceria meus avs, a me e o pai de Celine. Nunca a ouvi nem vi falar 
com eles pelo telefone; nem ela nem Sanford mencionaram ter falado com eles recentemente ou numa base regular. Durante a semana, Sanford e eu costumvamos tomar 
o caf da manh sem Celine, j que ela levava muito mais tempo para se levantar e vestir. Eu sabia que Sanford me falaria sobre meus novos avs se lhe perguntasse, 
mas no tinha coragem de abordar o assunto. Acabei decidindo que me acomodaria em minha rotina e esperaria que Celine tornasse a falar de seus pais... s ento pediria 
para conhec-los.
 medida que os dias passavam, minhas aulas de bal pareciam melhorar. Embora no pudesse me imaginar gostando algum dia de Dimitri, no pude deixar de me sentir 
lisonjeada quando ele elogiou minha tcnica. Madame Malisorf no chegou ao ponto de dizer que eu era uma aluna especial, mas admitiu que era melhor do que a mdia, 
o que foi suficiente para deixar Celine feliz e ainda mais confiante.
- Acho que  tempo de minha me conhecer Janet
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- anunciou Celine uma noite, ao jantar. - Janet j fez um progresso significativo. Pedirei  minha me para vir aqui durante uma de suas aulas de bal.
Sanford acenou com a cabea, sem dizer nada. Percebi algo estranho em seus olhos, uma expresso de preocupao que eu no vira muitas vezes antes. Como era natural, 
eu no podia deixar de especular por que no conhecera os pais de Celine antes. Sabia que eles no moravam muito longe. Por que nunca nos visitavam? Critiquei-me 
por no ter tido a coragem de perguntar a Sanford, pois era bvio, por sua expresso, que ele tinha opinies firmes a respeito dos sogros.
- Seu irmo no vai voltar das frias amanh? - perguntou Sanford.
Seu rosto no havia relaxado nem um pouco. Pensei que havia alguma coisa na famlia de Celine que o deixava transtornado.
- No me lembro. E o que est querendo dizer com "voltar das frias"? Quando Daniel no est de frias?
Celine arrematou com uma risadinha estridente. Nada mais foi dito a respeito de sua famlia. Dois dias depois, porm, no meio do jantar, a campainha da porta tocou. 
Mildred saiu apressada da cozinha para atender. Logo em seguida ouvi uma risada spera.
- Mildred! - exclamou um homem no vestbulo. - Voc ainda est aqui! Maravilhoso
- Daniel... - resmungou Celine, balanando a cabea.
Momentos depois, o irmo mais novo de Celine entrou na sala de jantar. Os cabelos castanho-claros eram compridos, espalhados pelo rosto e cabea como se ele estivesse 
passando os dedos por horas. Com cerca de um metro e oitenta de altura, corpo atltico, Daniel tinha olhos tambm castanho-claros, num rosto muito

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mais delineado que o de Celine. Percebi semelhanas no nariz e boca, mas havia um sorriso insinuante em Daniel que eu descobriria ser uma caracterstica habitual. 
Ele usava um bluso de couro preto, uma jeans desbotada e botas pretas, alm de luvas de couro preto.
- Celine, Sanford, como vocs tm passado? - Ele comeou a tirar as luvas. - Cheguei a tempo para o jantar. Muita sorte. Estou morrendo de fome.
Daniel se acomodou numa cadeira na minha frente e pegou uma fatia de po, antes que algum pudesse responder.
- Ol, Daniel - disse Celine, secamente. - Esta  Janet.
Ele piscou para mim.
- J soube que vocs finalmente se tornaram pais. Mame me fez um sermo. - Daniel me estudou por um instante. - Como eles a esto tratando? Sanford j negociou 
sua mesada?  melhor me deixar representla. Ah, vitela assada!
Daniel pegou um pedao de carne, enquanto acrescentava:
- Mildred  uma cozinheira e tanto.
Ele meteu a carne na boca e mastigou. Era como se um vento forte e impetuoso soprasse pela casa. Era evidente que Sanford estava to atordoado com a aparncia de 
Daniel que permanecia imvel, com a mo parada no ar, o garfo cheio de petit-pois.
- Ol, Daniel - disse ele, os olhos abrandando. - Vejo que finalmente conseguiu a motocicleta que vinha ameaando comprar.
- Pode apostar que sim. Pelo que me lembro, voc tambm tinha a idia de comprar uma motocicleta.
- Nunca falei srio - murmurou Sanford, lanando um olhar para Celine.
- E voc, Janet, no quer dar uma volta depois do jantar? - perguntou-me Daniel.
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- Claro que no - interveio Celine. - Acha que eu a exporia a tamanho risco?
Daniel soltou uma risada e continuou a comer. Eu ainda me sentia muito surpresa para falar. Ele tornou a piscar para mim.
- Aposto que voc gostaria de dar uma volta.
Ele me fitava com tanta intensidade que dava a impresso de que podia ver at a minha alma. Eu me perguntei se minha alma vestia o bluso de couro de um motoqueiro!
- Pare com isso, Daniel - ordenou Celine.
Ele riu de novo e balanou a cabea em derrota.
- Onde voc esteve desta vez? - perguntou Sanford.
Embora ele tencionasse ser crtico, senti uma certa inveja em seus olhos enquanto esperava que Daniel relatasse suas aventuras.
- No Cape. Voc teria adorado, Sanford. Ns pegamos a estrada litornea, atravs de Connecticut. Juro que pensei que poderia viajar para sempre, com o vento desmanchando 
nossos cabelos, e o cheiro de maresia. E nunca mais voltar.
- E, no entanto, voc est aqui - murmurou Celine, torcendo o nariz. - No ouso perguntar sobre o ns.
- No ousa? Engraado, mame tambm no ousou.
- Era de se esperar - comentou Sanford, sorrindo.
- Na verdade, Sanford, era uma linda donzela em apuros quando a encontrei, vesti, alimentei e lhe comprei uma motocicleta.
Daniel no parou de comer enquanto falava.
- Comprou uma motocicleta para uma estranha? - perguntou Celine, com uma careta.
- Depois de alguns dias, ela no era mais uma
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estranha. - Daniel tornou a piscar para mim. - E agora me fale sobre voc, Janet. Quantos anos tem?
- Farei treze anos dentro de algumas semanas - respondi, hesitante.
Daniel parecia fora do comum. Fiquei nervosa quando ele passou a concentrar suas perguntas em mim.
- To velha assim? Vai precisar negociar tambm um pacote de aposentadoria. Falando srio, est sendo bem tratada aqui? Tenho amigos em altos postos que podem interceder 
por voc num instante, se no estiver. Eles devem respeitar as normas da Conveno de Genebra sobre prisioneiros.
- Mas... mas no sou uma prisioneira.
Lancei um olhar para Sanford e Celine, em busca de ajuda.
- Quer parar com isso, Daniel? Est assustando-a com seu comportamento. - Celine fez uma pausa. - Como esto mame e papai?
- Muito bem. - Ele olhou para mim. - Nossos pais esto se transformando lentamente em esttuas. Ficam imveis como granito e s respiram ar filtrado.
- Daniel! - exclamou Celine.
- Ora, eles esto timos. S os vi por alguns minutos, antes de mame comear voc sabe o qu.
Ele acenou com a cabea em minha direo ao final da frase.
- J chega! - interveio Sanford, rspido.
- No acha que ela deve saber o que a espera, o tipo de famlia em que se meteu?
- Por favor... - suplicou Celine. Daniel deu de ombros.
- Est bem, serei corts. Juro. Gosta da vida aqui, Janet?
- Gosto muito.
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- E eles a matricularam naquela escola esnobe?
- A Peabody no  uma escola esnobe - corrigiu Celine. -  uma escola especial, com muitos benefcios.
- J lhe contaram que passei pela Peabody, mas fui convidado a procurar outra escola para estudar?
Sacudi a cabea.
- Meu irmo  o que se costuma chamar de garoto mimado - explicou Celine. - No importa quanto dinheiro meus pais estivessem dispostos a gastar com ele ou o que 
estivessem dispostos a fazer, Daniel sempre dava um jeito de estragar tudo.
- Sempre me senti sufocado naquele bero de ouro. - Ele deu de ombros. - Mildred, voc se superou com esta vitela. Ficou to suculenta quanto os lbios de uma virgem.
Daniel estalou os lbios ao terminar. Mildred ficou vermelha.
- Daniel! - protestou Celine.
- Quero apenas fazer um elogio e demonstrar meu agradecimento. - Ele inclinou-se para mim. - Minha irm sempre se queixa de que no sou agradecido.
Olhei para Sanford, que largou o garfo e a faca de prata com um pouco mais de vigor que o habitual.
- Como vo os negcios na grfica, Daniel? - perguntou ele.
Daniel empertigou-se na cadeira, limpou a boca com o guardanapo.
- Quando parti para as frias, havamos sofrido uma queda de cinco por cento em relao ao mesmo perodo no ano passado, o que elevou a presso de papai em cinco 
por cento. Mas quando passei por l hoje, a fim de pegar minha correspondncia, ele disse que pegamos a conta dos clubes de golfe Glenn, o que nos levou de volta 
 situao anterior. Portanto, sua presso
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melhorou. Juro que papai tem o corao ligado ao ndice Dow-Jones. Se houver um craque, papai desaba. Ele passou um dedo pelo pomo-de-ado, sorrindo.
- Pode zombar o quanto quiser, Daniel, mas papai construiu uma grande empresa, que nos proporcionou uma vida confortvel - declarou Celine.
- Tem razo. Eu estava apenas brincando, Janet. Algo que o meu cunhado aqui quase no faz, porque trabalha demais. Muito trabalho e pouca diverso, Sanford. - Daniel 
olhou para mim. - J soube que voc vem tendo aulas de bal.
- Isso mesmo - respondi, baixinho.
- E tem se sado muito bem - acrescentou Celine.
- O que  maravilhoso. - Daniel recostou-se. - Devo dizer, minha querida irm, que voc e o Mister Vidro escolheram uma pequena pedra preciosa. Estou impressionado, 
Sanford.
- Gostamos muito de Janet e esperamos que ela venha a gostar de ns - disse Sanford.
Fiquei feliz ao ver seu sorriso.
- Gosta deles? - perguntou-me Daniel, com aquele brilho malicioso nos olhos.
- Gosto.
Ele soltou uma risada.
- Tem certeza de que no posso lev-la para um passeio de motocicleta?
- Certeza absoluta - respondeu Celine. - Se voc quer sair por a e se arriscar, no posso impedi-lo, mas no permitirei que arrisque tambm minha filha. Ainda mais 
agora que ela se encontra no limiar de se tornar uma pessoa muito especial.
-  mesmo? - Daniel fitou-me atravs da mesa, sorrindo. - Eu diria que ela j era especial, antes mesmo de vir para c.
Seu sorriso me deslumbrava. No podia deixar de
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gostar dele, embora a expresso e as palavras duras de Celine indicassem com clareza que ela desaprovava o irmo.
Depois do jantar, Daniel e Sanford foram conversar no escritrio. Celine e eu fomos para a sala de estar, onde ela pediu desculpas pelo comportamento do irmo.
- Seu novo tio tem bom corao, mas anda um pouco perdido no momento. Fazemos tudo o que podemos para ajud-lo.  difcil. O problema  que ele no tem objetivos. 
No tem nenhum foco, o que  a coisa mais importante na vida, Janet. Foco e determinao. Ele no quer demais qualquer coisa para se sacrificar e fazer tudo para 
alcanar.  muito egosta e indulgente.
Celine olhou para seu retrato por cima da lareira e suspirou.
- Viemos da mesma casa, temos os mesmos pais, mas s vezes ele me parece um estranho.
- Alguma vez ele quis danar bal tambm?
- Daniel? - Ela riu. - Meu irmo parece que tem dois ps esquerdos e no  capaz de concentrar sua ateno para aprender um nico exerccio.
Celine soltou outro suspiro e acrescentou:
- Mas  meu irmo e tenho de am-lo. Ela fez uma pausa, fitou-me nos olhos.
- E voc  minha esperana. Sempre a amarei.
Saber que os olhos de Celine sempre me acompanhavam e que eu era sua esperana me levou a um esforo ainda maior. Por outro lado, tambm me fazia sentir pior se 
no agradava a Madame Malisorf ou se meu progresso no era to rpido quanto se esperava. No dia seguinte  apresentao explosiva de tio Daniel, Celine teve uma 
consulta mdica que a atrasou. Por isso, no pde comparecer  minha aula de bal depois
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da escola. Sem ela sentada no canto, senti-me um pouco mais  vontade. At Dimitri parecia mais cordial. Ao final da aula, Madame Malisorf anunciou que no dia seguinte 
eu comearia a fazer exerccios de pointe.
- No compreendo por que ela est fazendo isso - declarou Dimitri, depois que Madame Malisorf se retirou para a sua aula seguinte. Ele j tinha carteira de motorista 
e guiava seu prprio carro. -  a mais exigente professora de bal daqui e no pe uma aluna para fazer exerccios de pointe com facilidade. E nunca to cedo.
Ele pensou por um momento, depois acrescentou:
-  bem provvel que ela esteja apenas querendo agradar sua me. Seus ps ainda no se desenvolveram direito.
- Claro que j se desenvolveram - murmurei, baixando os olhos para verificar se ele tinha razo.
Dimitri enxugou o rosto com a toalha, sem desviar os olhos de mim.
- Sempre gostei de ver garotas se desenvolvendo - declarou ele subitamente.
A maneira como ele me olhava me deixava acanhada. Minha malha era to justa quanto a dele, e pela primeira vez me senti embaraada ao pensar no quanto revelavam.
- Seus seios j comeam a se desenvolver ou  apenas gordura de criana? - perguntou ele, estendendo um dedo em minha direo.
Dei um pulo para trs, fora do seu alcance, a respirao presa na garganta.
- Soube que h um grupo de bailarinos de avantgarde em que todos danam nus. No quer experimentar?
Depois do que Dimitri acabara de tentar, eu no fazia a menor idia se ele zombava ou no.
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-Nus?
Era uma coisa inconcebvel para mim.
- Ao que dizem, d mais liberdade de expresso. Posso muito bem tentar um dia desses. E ento?
- Ento o qu?
- No respondeu  minha pergunta. Seios ou gordura de criana?
-  uma coisa muito pessoal.
- No devia se envergonhar de seu corpo, Janet.
- No me envergonho.
- Dou a impresso de estar envergonhado do meu? Escondo qualquer coisa de voc? D uma boa olhada em mim. - Ele ficou de frente, sorrindo. - No esqueci como voc 
me olhou naquele primeiro dia.
Comecei a sacudir a cabea.
- No negue. A honestidade  a caracterstica mais importante para uma bailarina. Sua honestidade fica evidente quando se movimenta. Madame Malisorf sempre diz isso. 
Seios ou gordura de criana?
Ele deu um passo em minha direo. Sorria, o lbio superior contrado na expresso zombeteira agora familiar.
- Eu poderia fazer com que voc se d mal. Madame a tiraria dos exerccios de pointe em segundos. E sua me no ficaria nada satisfeita, no  mesmo?
As lgrimas me turvaram a viso.
- O que voc quer de mim?
- Deixe-me decidir... - Dimitri tornou a estender a mo para tocar em meu peito. Eu me sentia assustada demais para impedi-lo. - Ainda no tenho certeza. Eu lhe 
direi quando souber.
Comecei a me afastar, mas ele agarrou minha malha pelo ombro e puxou-a, antes que eu pudesse me desvencilhar.
- Pare com isso! - supliquei.
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- Envergonhada?
Dimitri quase que grunhiu a palavra.
- No, mas por favor no faa isso.
- Se no me deixar ver, estragarei seu primeiro dia de exerccios de pointe.
Engoli o caroo na garganta e fiquei imvel, o corao batendo forte, enquanto ele continuava a baixar minha malha, at deixar o peito  mostra. Dimitri no se mexeu 
por um longo momento, apenas me olhava. Depois, bem devagar, os olhos se contraram e se tornaram estranhamente escuros, quando ele me tocou. Dei um pulo para trs, 
como se seus dedos estivessem carregados de eletricidade.
- Seios, Janet. Pronto. Foi to difcil assim? Dimitri deu uma pirouette completa, um salto com
uma queda suave, antes de sair pela porta do estdio. Deixou-me com as lgrimas escorrendo pelas faces, o corao disparado.
Levantei a malha e sa tambm. Permaneci nas sombras do corredor at que o ouvi deixar a casa.
- Algum problema? - perguntou Mildred, ao me ver encolhida num canto.
- No - murmurei. - Eu estava apenas descansando.
Ela inclinou a cabea, numa confuso evidente.
Continuei apressada pelo corredor, afastando-me de seus olhos inquisitivos, subi a escada e entrei em meu quarto, fechando a porta. Ainda me sentia embaraada e 
assustada com a experincia no estdio. Minhas pernas tremiam. O que me apavorava mais era a sensao de ter ficado acuada e impotente. Dimitri poderia me despir 
toda, pois eu teria medo de det-lo. Por que ele fizera aquilo? Por que se aproveitara de mim? Por que eu no gritara por socorro? Pelo menos Mildred teria ido me 
ajudar.
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Limpei as lgrimas e contemplei-me no espelho. Ningum jamais me tratara como outra coisa que no uma garotinha. Nenhum garoto jamais pensara em mim sexualmente, 
at onde eu sabia. Mas agora meus seios comeavam a desabrochar. Meu tempo se aproximava. Quando Dimitri me tocara, eu ficara apavorada, mas tambm experimentara 
uma nova e estranha sensao. No tinha certeza se sentia mais medo dele ou do que acontecera dentro de mim.
Como eram afortunadas as outras meninas, que tinham mes e irms para conversarem num momento como aquele, pensei. Se relatasse a Celine o que ocorrera, poderia 
provocar a maior confuso em minhas aulas de bale. Madame Malisorf podia at desistir de mim. E o que eu faria neste caso?
Como eu guardaria o segredo? Qual seria a minha reao quando me encontrasse com Dimitri no dia seguinte? J estaria bastante nervosa por iniciar os exerccios de 
pointe. No pude deixar de me perguntar se aquela era a primeira de muitas outras experincias que teria de suportar para agradar a Celine.
E isso, tanto quanto qualquer outra coisa, me fazia ter medo do que o amanh traria.
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Oito

Fiquei me revirando na cama durante horas naquela noite. Quando finalmente peguei no sono, tive inmeros pesadelos, dos quais despertava suando frio. Pela manh, 
tremia toda e sentia uma dor intensa na nuca. Adormeci de novo pouco antes da hora em que deveria levantar e me aprontar para a escola. Uma suave batida na porta 
me acordou. Sanford esticou o rosto para dentro.
- J deveria ter se levantado, Janet - disse ele, sorrindo.
Acenei com a cabea e comecei a sentar na cama. A dor desceu pela espinha e soltei um gemido. Sanford entrou no quarto, preocupado.
- Qual  o problema?
- No me sinto bem - murmurei, os dentes batendo. - A nuca di e sinto calafrios.
Ele ps a mo em minha testa, parecendo ainda mais preocupado.
- A impresso  que voc est com febre. Vou pegar um termmetro.
Sanford saiu apressado do quarto. Voltou em menos de um minuto, ajeitou o termmetro sob a minha lngua.
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- Eu j receava que isso pudesse acontecer. - Ele andava de um lado para outro enquanto esperava. - Tem se esforado demais, com a escola e as aulas de bal. Precisa 
de mais tempo para descansar. Tambm est crescendo, e tenho certeza de que tudo isso  novo e assustador para voc. Ningum me escuta, mas sei que estou certo neste 
ponto.
Ele olhou para o termmetro e balanou a cabea.
- Mais de trinta e oito.  febre. Fique aqui, mocinha. Vou mandar Mildred trazer uma aspirina. A garganta di?
Sacudi a cabea.
- No. Apenas o pescoo e os ombros. E as batatas das pernas.
Mas estas sempre doam, e por isso eu no achava que fosse alguma coisa especial. Sanford fitou-me em silncio por um momento.
- Mudei de idia. No tomar a aspirina por enquanto. Vou lev-la ao mdico. Vista-se depressa. Vamos nos encontrar l embaixo.
Ele saiu do quarto. Levantei devagar, lavei o rosto, vesti uma velha camisa de flanela e umjeans largo. Ao passar pelo quarto de Sanford e Celine, pude ouvir suas 
vozes abafadas. Celine parecia transtornada.
- Mas do que est falando, Sanford? Isso  bobagem. Ningum fica doente por danar demais.
- Eu no disse que era a nica causa. A criana est exausta.
- Isso  um absurdo. Ela  jovem. Tem uma reserva ilimitada de energia.
Eu no tinha fora para escutar mais e tratei de descer. Quando me encontrou no vestbulo, Sanford se ofereceu para me carregar at o carro. Mas a dor no era to 
grande assim e me senti constrangida s por ele segurar meu brao, como se eu fosse uma velha.
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- Falei com o dr. Franklin.  um bom amigo e vai para o consultrio um pouco mais cedo s para atend-la.
- Celine est zangada comigo? Ela nem fora ver como eu passava.
- No, claro que no. Est preocupada, mais nada. Sanford apressou-se em desviar os olhos. O mdico examinou-me e concluiu que eu tinha gripe. Receitou apenas aspirina 
e repouso. Menos de uma hora depois, eu me encontrava de volta na cama, tomando aspirina e bebendo um ch.
- Ligarei da fbrica - disse Sanford a Mildred. - Tire a temperatura dela daqui a duas horas, est bem?
- Sim, senhor - murmurou ela, com um sorriso. Tornei a pegar no sono e tive um bom descanso.
Poderia ter dormido mais, mas fui dominada pela sensao de que havia algum no quarto. Abri os olhos para deparar com Celine, em sua cadeira de rodas, ao lado da 
cama, observando-me.
- No me parece muito quente - comentou ela, tirando a mo de minha testa.
- Estou me sentindo um pouco melhor - concordei, embora ainda estivesse dolorida e cansada.
- Ainda bem. No se preocupe com a escola. J telefonei e seus deveres para amanh sero entregues aqui em casa ao final da tarde. Descanse pelo resto do dia, at 
a aula de bal.
- A aula de bal? - balbuciei. - Talvez fosse melhor esperar at amanh, mame.
- No, no. Nunca se cancela uma aula com Madame Malisorf. Ou ela cancela voc. Tem alguma idia de quantas pessoas vivem atrs dela para que d aulas a seus filhos 
e filhas? Foi um feito e tanto conseguir que ela se concentrasse em voc desse jeito. E tem se sado muito bem, Janet. Ela me disse que decidiu iniciar seus exerccios 
de pointe. Estou orgulhosa de voc,
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minha querida. Levei anos para chegar a esse ponto. Sabia disso?
Sacudi a cabea.
- Pois  verdade. Por isso, pode constatar como voc  talentosa.
- Mas tenho medo de no ter um bom desempenho se estiver me sentindo mal.
- Nunca devemos permitir que nossos corpos nos desapontem, Janet. Uma bailarina deve ser dedicada. No importa o que acontea, quando chegar o momento de danar, 
voc dana. Dancei at mesmo no dia em que minha av morreu. Era muito ligada a ela. Sempre fui sua neta predileta. Foi ela quem estimulou o apoio de meus pais para 
que me tornasse uma bailarina. Sentia-me triste, mas tinha de danar e ponto final. Se eu pude danar no dia da morte de minha av, voc pode danar com um pouco 
de dor e uma febre mnima, Janet. Entendido?
Como eu no respondesse de imediato, ela insistiu:
- Entendido?
- Entendido.
No pude deixar de desejar que Sanford estivesse em casa para me salvar.
- timo. Ento est resolvido. Descanse at eu cham-la. - Celine comeou a se afastar, mas parou e comentou: - Na verdade, foi at um golpe de sorte. Voc pde 
descansar durante o dia inteiro antes de comear os exerccios de pointe. Tudo sempre favorece as pessoas dedicadas.
Depois que ela saiu, eu pensei: Celine danou no dia em que sua av morreu. Eu nunca tivera uma av, nem mesmo uma me; mas se tivesse, haveria de amlas tanto e 
me sentiria to triste no dia de suas mortes que no seria capaz de fazer qualquer coisa. Nunca poderia
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ser to dedicada quanto Celine. Ser que havia alguma coisa errada em mim?
Mildred veio tirar minha temperatura e informou que estava abaixo de trinta e oito. Mas eu ainda sentia uma dor na nuca e quase no comera durante o dia. Comi uma 
torrada com gelia e algumas colheres de mingau de aveia. O estmago ardia a cada coisa que eu engolia. Compreendi que acabaria vomitando se tentasse comer mais.
Sanford mandou um recado: esperava que eu estivesse me sentindo melhor e pedia desculpas por ter de permanecer na fbrica. Mildred comentou que ele dissera que tinha 
alguns problemas difceis para resolver, caso contrrio voltaria mais cedo para casa.
Adormeci de novo. S acordei quando ouvi o som do elevador de cadeira de Celine. Esperei, olhando para a porta do quarto. Momentos depois, ela entrou.
-  tempo de se levantar, minha cara - entoou Celine, como se fosse de manh. - Tome uma chuveirada quente para aquecer os msculos, ponha a malha e as sapatilhas 
de pointe.
Gemi ao sentar. Quando me levantei, tive uma vertigem, mas tentei esconder de Celine. Sabia que no tinha opo. Precisava danar, por ela.
- No demore no chuveiro - ordenou Celine. Eu sentia as pernas duras. Como poderia danar?
Tinha dificuldades para andar. Mesmo assim, forcei-me a entrar no chuveiro, deixei que a gua escorresse pela nuca e costas. Fez com que me sentisse um pouco melhor.
- Desa logo - disse Celine, antes de sair do quarto. - Quero que faa alguns exerccios de aquecimento antes de Madame Malisorf chegar. Dimitri j est aqui. Ele 
vai instru-la.
Quase me deixou exausta vestir a malha e pr as
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sapatilhas, mas consegui. Quando desci, Mildred saiu da sala de estar, onde estivera tirando o p e lustrando os mveis. Ficou surpresa ao me ver.
- No deveria sair da cama, Janet. - Ela passou o brao por meus ombros, para me virar na direo da escada. - O sr. Delorice deu ordens para...
- Minha me me quer na aula de bal.
-  mesmo? Ahn...
O tom de voz deixava claro qual Delorice ela mais tinha medo de contrariar.
- Janet! - chamou Celine.
- J estou indo!
Segui apressada para o estdio. Dimitri j iniciara o alongamento na barre. Como sempre, ele se mostrava totalmente alheio a tudo e a todos ao seu redor. Aproximei-me, 
tomei minha posio e comecei. Dimitri olhou para mim.
- Hoje  o seu grande dia - murmurou ele. - Se for boa para mim, farei com que tudo corra bem.
Dimitri riu e se afastou, para fazer o que eu j aprendera que eram frappes em trs quartos de pointe. Ele fazia com que parecesse to fcil quanto andar. Por sua 
expresso presunosa, compreendi que estava se exibindo. Seu sorriso arrogante comeava a me deixar mais doente do que a gripe.
Madame Malisorf chegou poucos minutos depois. Mostrou-se satisfeita por eu j ter feito o aquecimento.
- Deixe-me ver seus ps. - Ela inspecionou as sapatilhas de pointe. - Excelentes. Um bom trabalho, Celine. Faa uma flexo.
A postura do bal que alinha o corpo de uma maneira em que voc fica reta, com os quadris no mesmo nvel, os ombros abertos, mas relaxados, a plvis reta, as costas 
retas, a cabea erguida, o peso distribudo de forma regular entre os ps, era conhecida como
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flexo. Madame Malisorf dizia para eu me imaginar suspensa por um fio preso no topo da cabea. Dizia tambm que eu fazia isso muito bem, tinha uma excelente postura.
- A coisa mais importante a lembrar para o trabalho de pointe  a coordenao apropriada de todo o corpo, cada parte se adaptando corretamente. No deve haver tenso 
na hora de assumir qualquer nova posio, Janet.
A voz anasalada de Madame Malisorf parecia mais altiva do que o habitual. Dimitri, ao lado dela, fez a demonstrao. Deu-me a impresso de um fantoche gigante.
- Temos nos empenhado a fundo para desenvolver sua fora. Quero seus joelhos absolutamente retos, como os de Dimitri. Estou satisfeita pelo fato de sua articulao 
do tornozelo ser bastante flexvel para formar um ngulo reto com a parte dianteira do p na demi-pointe. No vire nem contraia os dedos do p. Dimitri.
Ele fez outra demonstrao. Enquanto eu iniciava os exerccios e movimentos determinados, ela gritava a todo instante:
- A postura, a postura! No, no, no! Voc est vergando. Por que age como se estivesse fraca? - Em frustrao, ela acrescentou: - Outra demonstrao, Dimitri. 
Observe-o bem, Janet, estude o que ele faz.
Ela acabou perdendo a pacincia, agarrou-me pelos ombros e virou-me para Dimitri.
- Observe-o!
Ele postou-se bem na minha frente, a menos de um passo de distncia, e comeou.
- Percebe como a postura  importante?
- Sim, Madame.
- Ento por que est esquecendo hoje?
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Olhei para Celine. Ela sacudiu a cabea, gentilmente. Eu no tinha permisso para dar desculpas. No podia sequer mencionar que estava doente. Comecei de novo, fazendo 
um esforo ainda maior. Meu corpo tremia todo por dentro, como se os ossos chocalhassem, mas consegui evitar que percebessem.
Dimitri demonstrou os ronds de jambe en lair, os petite e grande battements, sempre com um ar de superioridade. A msica ressoava em meus ouvidos. Sentia-me mais 
desajeitada do que nunca. Cada vez que olhava para Madame Malisorf, via sua desaprovao e desapontamento.
- Pare, pare, pare! - gritou ela. - Talvez seja ainda muito cedo.
- No! - murmurei.
Meus tornozelos davam a impresso de que iam partir a qualquer momento, os dedos dos ps provavelmente ficariam entrevados para sempre, mas eu no podia parar. Minha 
nova vida dependia daquilo.
Dimitri olhou para mim e depois veio se postar ao meu lado.
- Vamos tentar de novo, Madame - disse ele, pondo as mos em meus quadris. - Eu a guiarei atravs do exerccio.
Relutante, ela bateu palmas e comeamos. Dimitri sussurrou em meu ouvido, explicando como eu deveria fazer, para que lado me inclinar e virar. Passei a me sentir 
diferente, melhor e mais segura em suas mos firmes. Ele tinha uma enorme fora e houve ocasies em que praticamente me sustentou.
- Muito melhor - murmurou Madame Malisorf.
-  assim que se faz. timo. Mantenha a linha.
Sentia-me como um trapo descartado quando a aula finalmente terminou. A malha estava encharcada de suor.
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- Uma adequada primeira tentativa - declarou Madame Malisorf, enfatizando a palavra adequada.
- Ela ser muito melhor amanh - garantiu Celine, aproximando-se.
- Talvez no amanh, mas muito em breve - admitiu Madame Malisorf.
Dimitri suava quase tanto quanto eu.
- Obrigada por seu esforo extra, Dimitri - disse ela. - Deve tomar uma chuveirada quente imediatamente. No quero que meu aluno principal saia para o ar frio e 
fique doente. Celine?
- Claro. Pode subir e usar meu banheiro, Dimitri. Janet, leve-o ao meu quarto, por favor.
Madame Malisorf virou-se para Celine.
- Dentro de duas semanas farei uma apresentao dos meus alunos e Janet ser includa.
- Oh, Janet, isso  maravilhoso! Ouviu o que ela disse? Obrigada, Madame, muito obrigada. Seu primeiro recital! Que coisa maravilhosa, Janet!
- Recital? - repeti, a voz esganiada. - Com audincia e todo o resto?
- Voc estar preparada para o que ter de fazer - garantiu Madame Malisorf, com um pequeno sorriso.
- Claro que estar! - garantiu Celine. - O que quer que seja, ela estar preparada!
Dimitri pegou sua bolsa e saiu do estdio atrs de mim.
- Voc estava horrvel no incio - comentou ele, ao alcanarmos a escada.
- Eu me sentia mal. E ainda me sinto. Tive febre esta manh.
Ele riu.
- Fico contente por no ter dito isso a Madame. Ela detesta desculpas. V na frente. - Ele acenou com a cabea para a escada. Comecei a subir. - Sabe, Janet,
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sua bunda se tornou mais firme e arredondada no curto perodo em que temos trabalhado juntos.
Senti-me embaraada demais para dizer qualquer coisa. Continuei a subir. Levei-o at o banheiro de Celine e Sanford. Depois de lhe entregar uma toalha limpa, fui 
para o meu quarto, a fim de tomar tambm uma chuveirada e me deitar em seguida. Meus tornozelos doam mais do que qualquer outra parte do corpo. Quando tirei as 
sapatilhas, descobri os ps cobertos por manchas vermelhas.
Abri o chuveiro e tirei a malha. Pouco antes de entrar no boxe, porm, ouvi Dimitri dizer:
- Flexo!
Virei-me, chocada. L estava ele, com a toalha enrolada na cintura, olhando para mim.
- Flexo - repetiu ele. - Postura, postura.
- V embora!
Tratei de me cobrir, da melhor forma possvel. Dimitri riu.
- Lembra daquele grupo que eu falei, em que todos danam nus?
Ele se inclinou para pegar minhas mos. Mantive-a firme, me cobrindo, mas Dimitri era mais forte e afastou meu brao do peito. Depois, em outro movimento, soltou 
a toalha. Ficou nu na minha frente. No consegui desviar os olhos dele, apesar do meu choque e terror.
Dimitri se ergueu na ponta dos ps, puxou-me, virou-me, levantou-me pelo ar. Tornou a me pr no cho, comprimiu seu corpo contra o meu.
- Pronto, Janet. No foi bom?
Ele riu e pegou sua toalha, tornou a enrol-la na cintura, enquanto saa do quarto. Eu mal conseguia respirar.
Minha cabea girava. Lentamente, arriei para o cho, fiquei sentada ali, atordoada. Um momento
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depois, pensei que ia vomitar. Arrastei-me literalmente para o chuveiro, entrei no boxe cheio de vapor.
Sa em alguns minutos, enxuguei-me depressa, fui para a cama, como havia planejado. No instante em que fechava os olhos, ouvi a porta ser aberta. Era Dimitri.
- At amanh. E como eu disse, voc tem mesmo uma bundinha firme e empinada. Vai ser uma bailarina, no final das contas.
Ele soltou outra risada e foi embora. No apenas eu no podia falar, mas tambm no era capaz de pensar. Comprimi as mos contra a barriga e virei de lado. Adormeci 
em seguida.
Dormia h apenas umas poucas horas quando acordei para ouvir uma discusso. J estava escuro l fora. As vozes de Sanford e Celine vinham pelo corredor. Sanford 
no podia acreditar que ela me obrigara a fazer uma aula de bal.
- Ela estava com febre. O dr. Franklin disse que era uma gripe forte. Como pde submet-la a tamanho esforo fsico?
- Voc no compreende, Sanford. Ela tem de enfrentar os obstculos, super-los, desenvolver sua fora interior.  isso que faz a diferena entre uma autntica bailarina 
e uma amadora, uma criana e uma mulher. Ela teve um desempenho bastante bom hoje para ser convidada para um recital. No ouviu o que eu disse? Um recital!
- Ela  muito jovem, Celine - insistiu Sanford.
- Nada disso, seu tolo. Ela  quase velha demais. Numa questo de semanas, Janet cresceu vrios anos. Voc no entende de qualquer outra coisa que no seja vidro 
e aquela sua estpida fbrica. Limite-se a isso e deixe que eu cuido de nossa filha. Voc tirou a minha oportunidade, mas no far a mesma coisa com ela.
E depois houve apenas o silncio.
104
Nove

Apesar do que Celine dissera ao jantar, s fui conhecer meus novos avs no dia do recital de Madame Malisorf. Duas vezes por ano ela promovia um festival para apresentar 
os novos alunos e mostrar os mais antigos. Os novos bailarinos, como eu, tinham de demonstrar diversos exerccios e movimentos. Cada um dos mais antigos apresentava 
uma cena de um bal famoso. Dimitri danaria o bal principal de Romeu ejulieta.
Como eu aprendia e praticava em meu prprio estdio, no conhecia a meia dzia de outros alunos iniciantes. Por isso, eles no sabiam at onde eu havia progredido, 
mas eu tambm no tinha idia do que eles eram capazes de fazer. Quando cheguei com Sanford e Celine ao estdio de Madame Malisorf, os outros alunos e eu nos estudamos 
durante os exerccios de aquecimento, como se fssemos pistoleiros prestes a entrar num tiroteio. Pelas expresses intensas de pais, avs, irmos e irms, senti 
que todos esperavam que seu filho, filha, irmo ou irm se destacasse acima do resto. Eu sabia que era essa a expectativa de Celine. Durante toda a viagem para o 
estdio, ela se gabou por mim.
- Quando descobrirem que voc no teve qualquer
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treinamento antes de ir morar conosco, mas tambm nunca sequer vira um bal, todos ficaro espantados. E espere s at descobrirem a rapidez com que Madame Malisorf 
a ps para fazer exerccios de pointe. - Ela soltou uma pequena risada. - Posso imaginar as reaes... e voc tambm, no , Sanford?
- Ainda acho que houve uma certa precipitao nesse ponto, Celine.
Sanford era o nico a notar minhas dores terrveis. Todas as noites me perguntava se eu queria uma bolsa de gua quente ou uma massagem. Havia ocasies em que eu 
ficava to ruim que mal conseguia andar no dia seguinte.
- Acho que Madame Malisorf  a pessoa que tem mais condies de julgar isso, Sanford. Se ela no achasse que Janet est indo bem, no a incluiria em seu recital.
Como se eu j no me sentisse bastante nervosa, as palavras e as grandes expectativas de Celine me faziam tremer. Talvez porque estivesse to nervosa, meus ps doam 
ainda mais. Estavam to inchados que fora difcil dar o lao nas sapatilhas naquela manh.
Quando chegamos ao estdio de Madame Malisorf j se encontrava ali uma pequena multido de espectadores. Era constituda na maior parte pelas famlias dos bailarinos, 
mas havia tambm, segundo Celine, alguns amantes do bal e outros professores, at mesmo produtores de bal,  procura de novos astros e estrelas em potencial.
O estdio tinha um pequeno palco e um vestirio por trs. Eu j usava meu tutu e as sapatilhas. Assim, estava pronta para os exerccios de aquecimento. Mal comeara 
quando vi Sanford empurrando a cadeira de rodas de Celine em minha direo, acompanhados por um homem mais velho, de bigode grisalho, e uma
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mulher tambm mais velha, alta, cabelos grisalhos meio azulados. A mulher usava um excesso de maquilagem, pensei, com ruge demais escurecendo as faces, uma camada 
de batom nos lbios to grossa que a fazia parecer um palhao.
O homem vestia um terno azul-marinho e gravata. Tinha passos geis e um sorriso cordial, iluminado por olhos azuis que o faziam parecer quase to jovem quanto Sanford. 
O rosto da mulher era todo esticado, os olhos cinzentos muito frios. Mesmo quando chegou perto, ainda parecia algum usando uma mscara.
- Janet, quero que conhea meus pais, sr. e sra. Westfall - disse Celine.
Aquelas eram as duas pessoas que seriam meus avs, pensei. Antes que pudesse falar, o homem disse:
- Ol, querida.
-Ol.
Minha voz era pouco mais que um sussurro. Minha nova av fitou-me. Fui avaliada, pesada e medida da cabea aos ps.
- Ela  petite. - A mulher olhou para Celine. - Disse que ela tem quase treze anos?
- Isso mesmo, mame. Mas tem movimentos to graciosos quanto uma borboleta - respondeu Celine, orgulhosa. - Eu no gostaria que ela fosse diferente.
- E se ela no crescer muito mais do que isso?
A sra. Westfall observou-me atentamente. Notei que faiscava de jias. Tinha no pescoo um ofuscante colar de diamantes, os dedos eram cobertos por anis, rubis, 
diamantes, tudo em engastes de ouro e platina.
- Claro que ela vai crescer! - declarou Sanford, numa voz indignada que me surpreendeu.
- Duvido muito - murmurou minha nova av. - Onde vamos sentar?
Ela virou-se para o auditrio, j quase lotado.
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- Nossos lugares so aqueles ali.
Sanford acenou com a cabea para algumas cadeiras vazias na primeira fila. O que pareceu agradar  minha nova av.
- Pois ento vamos sentar.
Ela se encaminhou para as cadeiras com um modo de andar gracioso, a cabea bem erguida.
- Boa sorte, mocinha - disse meu novo av.
- Sairemos depois para jantar e comemorar - acrescentou Celine, pegando minha mo.
- Relaxe e faa o melhor que puder - aconselhou Sanford, oferecendo-me seu sorriso especial.
- Oh, no! - exclamou Celine, ao se virar na cadeira. -  meu irmo. Quem podia esperar que ele viesse?
Daniel avanou pelo corredor com um sorriso largo. Usava um chapu de vaqueiro, uma camisa amarelo-clara ao estilo do Oeste, jeans e botas. Tudo parecia novo, mas 
porque o resto da audincia se vestia como se fosse um teatro de bal em Nova York, ele se destacava, causando uma onda imediata de comentrios.
-  assim que se veste para uma ocasio como esta? - perguntou Celine, quando ele nos alcanou.
- O que h de errado com a minha roupa? Tudo custou muito caro. Ei, Janet, quebre uma perna!
No havia uma cadeira reservada para ele. Daniel foi se encostar na parede, cruzou os braos. Pouco depois de sua chegada, deixei a famlia e fui me juntar aos outros 
alunos, que se exercitavam nas barres. Dimitri parou e se aproximou de mim.
- Relaxe, Janet. Est muito tensa. Lembre-se de que isto no  o Metropolitan Ballet. Vamos nos apresentar apenas para um bando de pais orgulhosos.
Nota de rodap:
Em ingls, break a leg, expresso brejeira usada no meio teatral americano, com a inteno real de desejar boa sorte. (N. T.)
Fim da nota de rodap.
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- Seus pais esto aqui?
- Claro que no. Esta apresentao no tem a menor importncia.
- Tem para mim.
Dimitri exibiu aquele seu sorriso arrogante. Arrependi-me no mesmo instante por ter admitido como aquela noite era importante para mim.
- Apenas finja que estou l com voc e tudo correr bem. - Ele inclinou-se para mim. - Mais do que isso, imagine que estou nu.
Fiquei vermelha. Dimitri riu e voltou para junto dos alunos mais velhos. Percebi que todos olhavam para mim. Ele sussurrou alguma coisa e os outros riram. Tentei 
ignor-los, concentrar-me no que fazia, mas meu corao batia forte e eu sentia dificuldade para respirar.
Finalmente, Madame Malisorf entrou no palco. Houve silncio no auditrio, a tal ponto que deu para ouvir algum limpando a garganta l no fundo.
- Boa-tarde para todos. Obrigada por terem vindo ao nosso recital semestral. Comearemos hoje pela demonstrao de alguns exerccios de bal bsicos, embora difceis, 
o que chamamos de parte do adgio em nossa aula. Sero apresentados por alunos iniciantes. Vo notar como todos mantm muito bem a posio e o equilbrio.
Ela fez uma pausa.
- Todos eles, sinto-me feliz em dizer, esto agora danando sur ls pointes, como costumamos dizer. Como alguns de vocs que j estiveram aqui antes sabem, danar 
na ponta dos ps foi desenvolvido no incio do sculo XIX, mas no se tornou muito usado pelos bailarinos at a dcada de 1830. Foi nessa ocasio que a bailarina 
sueca-italiana Marie Taglioni demonstrou seu potencial para o efeito potico. Tradio, estilo, tcnica, graa e
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forma so os elementos que enfatizamos na Escola de Bal Malisorf. E agora, sem mais comentrios, meus alunos iniciantes.
Madame Malisorf fez uma pequena reverncia e recuou, acenando com a cabea para o pianista.
Sabamos o que tnhamos de fazer assim que a msica comeou. Todos foram ocupar suas posies. A parte mais difcil da rotina, pelo menos para mim, era o entrechat, 
que eu acabara de aprender. O entrechat  um dos passos da elevao. A bailarina pula reto para cima, bate com as panturrilhas em pleno ar, cai suavemente. Madame 
Malisorf queria que ligssemos isso a uma pirouette, antes de uma parada graciosa, encerrando com uma reverncia, na expectativa de aplausos.
Olhei para meus novos avs e depois para Celine, que tinha um pequeno sorriso nos lbios. Sanford acenou com a cabea para mim e ofereceu um sorriso mais largo. 
Daniel dava a impresso de que ria de todos. Afastou-se da parede e fingiu ficar em pointe, depois tornou a se encostar.
A msica comeou. Enquanto danava, notei que todos os alunos olhavam para todos. Lembrei como era importante me concentrar, sentir a msica, absorverme em seu pequeno 
mundo, e tentei ignor-los. O nico rosto que passei a vislumbrar era o de Dimitri. Ele parecia to crtico e rigoroso quanto Madame Malisorf.
A dor em meus ps era terrvel. Podia muito bem estar em alguma espcie de cmara de tortura, pensei. Por que Madame Malisorf ignorava minha agonia? Era mesmo assim 
que se desenvolvia uma bailarina, ou Dimitri tinha razo, ela me pressionava porque Celine queria assim?
Pouco depois que comeamos, a garota ao meu lado passou a diminuir a distncia que nos separava. Madame Malisorf nunca nos pusera para ensaiar juntas.
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Presumia-se que permaneceramos em nosso prprio espao e faramos o que nos fora ensinado. Eu deveria ter prestado mais ateno aos alunos ao meu redor. Ao completar 
uma volta, a garota roou a saia do meu tutu com a mo direita.
Isso me deixou desequilibrada, mas no percebi at terminar o entrechat e iniciar a pirouette. Inclinei-me demais na direo dela. Quando ela virou e eu girei, ns 
colidimos e perdemos o equilbrio. Ca no cho encerado num movimento desajeitado, apoiada nas mos. Ela continuou a perder o equilbrio e quase esbarrou em outra 
bailarina, antes de se estatelar de lado.
A audincia desatou a rir. A risada de Daniel foi uma das mais altas. Dimitri parecia desesperado. Celine abriu e fechou a boca, seu rosto se contraiu em incredulidade. 
Sanford parecia triste, mas minha nova av no parava de balanar a cabea, com um sorriso afetado. Meu novo av se mostrava surpreso.
Madame Malisorf,  direita do palco, gesticulou para que levantssemos depressa. Tratei de obedecer. Comecei a efetuar os ltimos passos de novo, mas ela sacudiu 
a cabea e indicou que eu deveria parar e acompanhar os outros numa reverncia.
Os aplausos foram estrondosos. Os convidados pareciam ter apreciado nossas imperfeies. Madame Malisorf retornou ao centro do palco. Esperou que houvesse silncio.
-  por isso que passamos a maior parte da nossa juventude tentando fazer os exerccios e passos mais simples. O bal  de fato a dana dos deuses. Meus novos alunos...
Ela gesticulou para ns, enfatizando a palavra novos. Houve mais aplausos, enquanto deixvamos o palco s pressas. Os alunos mais antigos adiantaram-se para tomar 
nosso lugar. Dimitri lanou-me um olhar furioso.
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Eu tinha a sensao de ter o estmago cheio de cascalho. A garota que colidira comigo se aproximou.
- Sua idiota! - gritou ela. Todo mundo parou para escutar. - Como pode ser to desastrada? Por que no olha para onde vai?
- Eu olhei. Voc  que chegou perto demais de mim.
- Todos viram. - Ela olhou para os amigos. - De quem foi a culpa?
- Da An - gracejou um dos meninos, fazendo com que todos rissem.
A garota lanou-me outro olhar de raiva e todos se afastaram. Sentei numa cadeira, as lgrimas escorrendo em ziguezague pelo rosto, pingando do queixo.
- Calma, calma...
Levantei a cabea ao ouvir o sussurro e avistei Sanford se aproximando pelos bastidores.
- No h motivo para isso, Janet - acrescentou ele. - Voc se saiu muito bem.
- Fui horrvel!
- No foi, no. A queda no foi culpa sua.
- Todos acham que foi - balbuciei, removendo as lgrimas com as costas das mos.
- Vamos assistir ao resto da apresentao. Peguei sua mo e fui para a audincia. Tinha a impresso de que todos olhavam para mim e riam. Mantive a cabea abaixada, 
os olhos fixados nos ps, enquanto dvamos uma volta e descamos pelo lado para alcanar as cadeiras na frente. Havia duas vazias. Meus novos avs tinham ido embora.
Celine no disse nada. Respirou fundo, olhando para o palco, enquanto comeava a cena de Romeu e Julieta. Dimitri foi to maravilhoso quanto era em nosso estdio. 
Danava como se fosse o dono do palco. Era evidente, at mesmo para mim, uma simples principiante,
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que ele fazia com que os outros parecessem melhores do que eram. Quando a cena terminou, os aplausos foram mais altos, as expresses dos convidados indicavam sua 
satisfao. Madame Malisorf anunciou uma recepo na sala ao lado, onde seriam servidos hors doeuvres e vinho para os adultos.
- Vamos para casa - resmungou Celine.
- Celine...
Eu sabia que Sanford no queria que me sentisse ainda mais constrangida do que j estava. Celine no o deixou continuar:
- Por favor, vamos embora.
Ele foi para trs da cadeira de rodas e comeou a empurr-la. Algumas pessoas pararam para dizer que haviam gostado de meu desempenho.
- No se sinta desanimada, menina - disse um homem de cara vermelha. -  como montar a cavalo. Levante e tente de novo.
A esposa se apressou em afast-lo. Celine lanoulhe um olhar agressivo, impregnado de dio, depois virou-se para a porta. No podamos chegar l com a rapidez que 
ela gostaria.
Especulei onde Daniel estava. Avistei-o conversando com uma das bailarinas mais velhas. Acenou para mim enquanto nos retirvamos, mas eu me sentia embaraada demais 
para acenar em resposta. Foi s depois que entramos no carro que falei:
- Desculpe, mame. No sabia que a garota estava to perto de mim, e ela tambm no me notou.
- A culpa foi da outra garota - confortou-me Sanford.
Celine manteve-se calada. Pensei que ela nunca mais falaria comigo. Alguns minutos mais tarde, no entanto, Celine disse:
- No se pode atribuir a culpa por qualquer coisa
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a outra bailarina ou bailarino. Voc deve estar atenta  outra. Se ela esbarra, voc tem de compensar.  o que faz com que se torne a melhor.
Seu tom no deixava margem para uma argumentao, mas mesmo assim Sanford tentou me defender.
- Ela est apenas comeando, Celine. E os erros servem como lies.
- Os erros devem ser cometidos nos ensaios, no num recital. Voc ter de se esforar mais.
Celine sentia-se envergonhada de mim, e no se dava ao trabalho de esconder.
- Mais ainda? Como ela pode trabalhar mais do que j trabalha, Celine? Janet no faz outra coisa. Nunca teve a oportunidade de arrumar novas amizades. Ela precisa 
ter uma vida tambm.
Sanford no ia desistir. O que me deixou chocada, j que ele sempre cedia com a maior facilidade s vontades de Celine.
- Esta  a sua vida. Janet a quer tanto quanto eu a quero para ela. No  verdade, Janet?
- , sim, mame.
- Est vendo? Conversarei com Madame Malisorf. Talvez possamos persuadi-la a dar mais uma aula por semana a Janet.
- Quando? - indagou Sanford. - No fim de semana? Voc est sendo irracional, Celine.
- Estou cansada de ouvir voc discutindo comigo, Sanford. E no vou admitir que sempre tome o lado dela.  meu marido, Sanford: sua lealdade me pertence. Janet ter 
mais uma aula por semana.
Sanford sacudiu a cabea.
- Ainda acho que pode ser demais, Celine - murmurou ele, gentilmente agora.
- Deixe que Madame Malisorf e eu decidamos o que  demais, Sanford.
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Ele no argumentou mais. Enquanto seguamos para casa, lembrei da idia de jantar fora. E por que meus novos avs haviam ido embora? Tive medo de perguntar. Tambm 
no precisei, porque Celine logo explicou, a voz fria:
- Mame e papai ficaram to embaraados que foram direto para casa.
No imaginava que era possvel me sentir ainda menor do que era, mas desejei poder afundar na fenda entre os bancos e desaparecer por completo. Assim que chegamos 
em casa, subi correndo para o meu quarto e fechei a porta. Pouco depois, ouvi uma batida suave.
- Entre! - gritei.
Sanford entrou e me sorriu. Eu estava sentada na cama. Chorara todas as lgrimas que guardara para ocasies tristes. Meus olhos doam.
- No quero que se sinta to mal - murmurou ele, gentilmente. - Ter muitas outras oportunidades de ter um desempenho melhor.
- Cometerei outro erro, com toda certeza. No sou to boa quanto Celine acha que sou.
- No se subestime depois de apenas um recital, Janet. Todos, at mesmo os grandes bailarinos, cometem erros.
Ele ps a mo em meu ombro, depois esfregou meu pescoo tenso e dolorido.
- Ela me odeia agora - murmurei.
- Claro que no, Janet. Ela  muito determinada, mas vai relaxar e compreender tambm que no  o fim do mundo. Vai ver s. - Sanford passou a mo por meus cabelos. 
- Voc era sem dvida a bailarina mais atraente no palco. Tenho certeza de que a maioria achou que era a melhor.
-  mesmo?
- Claro que sim. Todos olhavam para voc.
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- O que tornou tudo ainda pior. Sanford riu.
- No pense mais nisso. Pense apenas em coisas felizes. Seu verdadeiro aniversrio no  no prximo sbado?
- , sim, mas Celine decidiu mudar para o dia em que me adotou.
- Foi apenas um desejo tolo de Celine. Por que ns dois no planejamos sua festa de aniversrio? Sei que ainda no teve a oportunidade de fazer novas amizades, mas 
talvez seja possvel na sua festa. Pense em algumas das crianas que gostaria de convidar. Vamos nos divertir.
- Meus avs viro?
O sorriso de Sanford se tornou tenso.
- Acho que sim. E agora troque de roupa para jantarmos.
- Celine no est zangada comigo? - perguntei, esperanosa.
- No. Celine sofreu um grande desapontamento em sua vida.  difcil para ela ter outros. Foi s isso. Ela vai ficar bem. Todos ns ficaremos.
Era para ser uma promessa, mas saiu mais como uma prece... e durante a maior parte da vida, minhas preces no haviam sido atendidas.
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Dez

Madame Malisorf recusou-se a acrescentar outro dia s minhas aulas de bal na semana. Celine e ela conversaram trs dias depois... a primeira aula aps o recital.
- No - declarou Madame Malisorf. - Foi em parte um erro meu t-la pressionado. Nunca deveria ter concordado em iniciar os exerccios de pointe. Seria melhor se 
tivesse dado mais ateno ao meu instinto. Janet precisa encontrar seu prprio nvel de competncia, sua capacidade. Talento  como gua. Se voc remove as obstrues, 
vai alcanar o nvel mais alto possvel por si mesmo.
- Isso no  verdade, Madame - protestou Celine. - Devemos fixar os limites para ela. Devemos determinar sua capacidade. Ela no vai se empenhar ao mximo se no 
a pressionarmos. No tem disciplina interior.
Madame Malisorf lanou-me um olhar. Eu fazia aquecimento com Dimitri, que ainda no dissera nada sobre meu desempenho na apresentao.
- Deve tomar cuidado, Celine. Pode faz-la perder o interesse e a afeio pela beleza e habilidade. Se treina
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demais um atleta, ele comea a regredir, a perder a habilidade e a massa muscular.
- Correremos esse risco. Dobre o tempo de treinamento. Dinheiro no  problema.
- Dinheiro nunca foi nem jamais ser uma considerao para mim - garantiu Madame Malisorf, em tom rspido, erguendo os ombros e a cabea, orgulhosa.
Celine pareceu murchar na cadeira de rodas.
- Sei disso, Madame. Quis dizer apenas...
- Se vou ser a professora da garota, Celine, devo ter o comando. Eu  que determinarei a quantidade de aulas. Mais nem sempre  melhor. O importante  aprimorar 
a qualidade do que j existe. Se voc pensa de maneira diferente...
- Claro que tem toda razo, Madame Malisorf - disse Celine. - Apenas fiquei desapontada no outro dia, e sei que tambm sentiu a mesma coisa.
- Ao contrrio, no fiquei desapontada.
Celine ergueu a cabea num gesto abrupto. At mesmo eu interrompi os exerccios para olhar.
- No ficou? - murmurou Celine, ctica.
- No, no fiquei. Senti-me feliz ao ver a criana se levantar e tentar continuar. Isso  vigor, determinao. Vem daqui.
Madame Malisorf encostou a palma da mo no corao.
- Claro, Madame, tem razo outra vez - murmurou Celine, olhando para mim. - Fico agradecida por a termos como professora.
- Ento no vamos desperdiar o tempo de que dispomos, Celine.
Com um aceno de mo, Madame Malisorf encerrou a conversa. Foi at o lugar em que Dimitri e eu nos aquecamos para iniciar a aula.
E foi uma boa aula. At mesmo eu senti que fizera
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mais do que o habitual. O nico comentrio de Madame Malisorf sobre a apresentao foi uma referncia a meu trabalho de pointe. Durante o resto da aula, ela e Dimitri 
me conduziram atravs de uma srie de exerccios, elogiando-me por meu trabalho.
Mas nada disso pareceu atenuar as preocupaes de Celine. Ela permaneceu em silncio na cadeira de rodas, com uma expresso sombria. Assim que a aula terminou e 
os dois se retiraram, Celine veio me dizer que achava que Madame Malisorf estava errada.
- Ela apenas no quer abrir mo de sua folga - declarou Celine, irritada. - No bal, mais  melhor.  preciso ser exigente com seu corpo e sua alma. Vou orientar 
seus exerccios nos fins de semana. Comearemos este sbado.
- Mas este sbado  meu aniversrio. Sanford e eu vamos fazer uma festa. J convidei alguns colegas da escola.
- Sanford est planejando sua festa, hem? - A expresso nos olhos de Celine me deixou gelada. - Mas a festa no vai durar o dia inteiro, no  mesmo? Faremos os 
exerccios pela manh, e voc pode ter a festa de tarde... se  que vai ter.
Ela virou a cadeira e se retirou. Desde a apresentao que Celine vinha se comportando de uma maneira diferente comigo. Estava mais impaciente, as palavras mais 
rspidas, os olhos mais crticos. Passava mais tempo sozinha, s vezes apenas olhando pela janela. E sempre que eu mencionava Sanford, ela contraa os olhos e me 
fitava como se tentasse ver dentro de mim, descobrir o que eu pensava e sentia. Uma ocasio encontrei-a encolhida num canto, as sombras cobrindo-a como uma manta. 
Olhava para o quadro que a mostrava num traje de bal.
Quando mencionei minha preocupao para Sanford,
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ele disse que eu deveria dar tempo a Celine. No comentei que achava que Celine no gostava do tempo que ele e eu passvamos juntos. Tive medo de que comeasse a 
me evitar para no desagrad-la.
- Ela tem seus altos e baixos - explicou Sanford. - Como tudo vem acontecendo muito depressa, Celine precisa de tempo para se ajustar.
Ns dois saramos para uma caminhada pelo terreno, descendo at o lago. Eram momentos especiais como aquele, na companhia de um pai que me amava e se importava comigo, 
que faziam com que valessem a pena todas as horas de tortura no estdio.
- J fiz todos os planos para a sua festa de aniversrio - anunciou Sanford, quando chegamos  beira do lago. - Teremos um churrasco, com cachorro-quente e hambrguer, 
alm de bifes para os adultos.
- Quem vir? - indaguei, na esperana de que ele mencionasse meus novos avs.
- Algumas das pessoas da fbrica que voc j conheceu, a sra. Williams da Peabody, Madame Malisorf,  claro, e... - como se lesse meus pensamentos, ele se apressou 
em acrescentar, depois de uma pausa: - os pais de Celine e Daniel. Quantas pessoas voc convidou?
- Dez.
- A festa ser sensacional. Mas lembre-se de uma coisa: no quero que ningum use o bote sem a presena de um adulto. Combinado?
Acenei com a cabea. Aquela era a coisa mais emocionante em minha vida, ainda mais do que o recital. Afinal, eu nunca tivera uma autntica festa de aniversrio. 
E s tivera um bolo de aniversrio uma vez, mas fora tambm para duas outras crianas no orfanato. Partilhar o bolo fizera com que deixasse de ser uma coisa especial. 
Os aniversrios no so especiais sem uma
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famlia para ajudar a comemorar, sem uma me para lembrar coisas sobre seu crescimento e um pai para dar beijos e murmurar "Minha garotinha est crescendo. Daqui 
a pouco vai comear a namorar." Mas agora eu teria uma festa de aniversrio s para mim... e uma festa grande ainda por cima!
Contei a Sanford que Celine queria que eu tivesse um treinamento de bal na manh do meu aniversrio. Seus olhos se tornaram pequenos e preocupados. Mais tarde, 
durante o jantar, ele mencionou o assunto. Celine me lanou um olhar que parecia dizer que eu a trara.
- Ela foi se queixar para voc? - indagou Celine. - Por que se tornou de repente o seu cavaleiro num cavalo branco?
- Ora, Celine, pare com isso. Janet apenas mencionou o assunto quando falei dos planos para a festa de aniversrio. Pensei em decorar a sala na manh de sbado e...
- O que esperava que eu fizesse, Sanford? - perguntou ela, desdenhosa. - Subisse numa escada para pendurar bales?
- Claro que no. Apenas pensei...
Dava para perceber que ele comeava a fraquejar. Celine olhou para mim.
No h feriados nem dias de folga, nenhum momento para esquecer qual  o seu destino, Janet.
- Sei disso. No estava me queixando.
No queria que ela pensasse que eu no me sentia grata. Celine fitou-me em silncio por um longo momento. Foi um olhar duro, cheio de desapontamento. Tive de baixar 
os olhos para a minha comida.
- Sei que ainda  uma menina, Janet, mas como bailarina est entrando num mundo que exige que se torne adulta mais depressa. O que vai torn-la mais forte para tudo 
na vida, eu prometo.
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Levantei os olhos e ela sorriu.
- Percorreu um longo caminho muito depressa, Janet. No faz tanto tempo assim que era uma criana perdida naquele orfanato. Agora, tem um nome e um talento. Vai 
ser algum na vida. No me abandone.
A voz de Celine me surpreendeu ao final, com seu suave tom de splica.
- Isso no vai acontecer, mame.
Como ela podia recear que eu a abandonasse?
- Ainda bem. Ento est resolvido. Vamos trabalhar pela manh e voc poder ter sua festa de tarde. E Mildred pode ornamentar a sala, Sanford.
- Eu gostaria de ajudar - murmurou ele.
- Foi o que pensei.
Percebi que Celine o estudava como muitas vezes fazia comigo, tentando espiar dentro de sua mente.
Celine era uma professora mais rigorosa do que Madame Malisorf. Na manh do meu aniversrio ela esperava por mim no estdio, impaciente. Eu seguia para o estdio 
quando Mildred avisou que algum me chamava ao telefone. Era uma das garotas da escola, Betty Lowe, querendo falar sobre a festa e os cinco garotos que eu convidara. 
Ela disse que todos sabiam o quanto Josh Brown gostava de mim. A conversa demorou mais do que imaginei. Celine estava aborrecida quando entrei no estdio, cinco 
minutos atrasada.
- O que eu lhe falei sobre o tempo e sua importncia quando se faz exerccios, Janet? Pensei que tinha entendido.
- Desculpe.
Antes que eu pudesse oferecer qualquer desculpa, Celine me mandou para a barre. Eu no podia deixar de pensar na festa, sobre todos se arrumando, a msica e a comida. 
Sabia que aquela festa faria com que as crianas
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convidadas finalmente me aceitassem em seu grupo. Achava que no precisava fazer mais nada para impressionar Josh, mas mesmo assim usaria meu vestido mais bonito.
Enquanto esses pensamentos me passavam pela cabea, iniciei a rotina de exerccios. Celine adiantou a cadeira de rodas at ficar a poucos centmetros de distncia. 
Comeou a criticar os movimentos e o ritmo
Est perdendo a sintonia, Janet. No, no to depressa. Escute a msica. Caiu com muita fora! No pode cair como um elefante. Tem de flutuar como uma borboleta. 
Relaxe os joelhos. No. Pare!
Ela cobriu o rosto com as mos.
Desculpe - murmurei, quando ela permaneceu calada. - Estou tentando.
- No no est. Tem os pensamentos longe daqui. Eu gostaria que Sanford nunca tivesse pensado em realizar essa festa de aniversrio.
A boca normalmente bonita de Celine se contorceu numa expresso horrvel, os olhos ardiam com uma raiva interior, levando-me a virar o rosto. Depois de uma longa 
pausa, ela acrescentou:
-Est certo. Compensaremos mais tarde. V se aprontar para a festa. Sei quando luto uma causa perdida. Pode ter certeza de que sei.
Seu tom era amargurado. Tornei a pedir desculpas. Mas assim que deixei o estdio e virei no corredor, desatei a correr pela casa. Subi a escada e fui para o meu 
quarto. Queria arrumar os cabelos num novo estilo, e ainda no decidira que vestido usar. E queria tambm passar esmalte nas unhas. Quando os primeiros convidados 
chegaram, eu ainda estava me arrumando. Sanford teve de vir bater na porta para me avisar que devia descer e receber as pessoas.
Os presentes se acumularam como os embrulhos
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debaixo da rvore de Natal. Mildred pusera bales de gs no teto, amarrados com fitas de cores diferentes. Havia enfeites de aniversrio nas paredes e janelas. A 
quantidade de comida era impressionante. Ouvi a sra. Williams comentar que nem podia imaginar o que Sanford e Celine fariam numa festa de casamento.
Um casamento?, pensei. Haveria de me tornar uma bailarina famosa e casaria com outro bailarino famoso? Casaria com um rico industrial, como Sanford? Iria para a 
universidade e conheceria algum rapaz bonito? Era como se a minha vida aqui fosse a chave para destrancar uma arca do tesouro de fantasias... e fantasias que poderiam 
ser consumadas!
Meus novos avs foram os ltimos a chegar. Ouvi Celine perguntar por Daniel, e vi minha av fazer uma careta.
- Quem sabe onde ele est? Foi por isso que nos atrasamos. Ele deveria nos trazer.
- Feliz aniversrio - disse meu av, ao me ver parada ali perto.
Foi ele quem me entregou o presente.
- Feliz aniversrio - repetiu minha av.
Ela no me lanou mais que um olhar de passagem, antes de comear a conversar com os outros convidados. Meu av foi conversar com Sanford e voltei para junto de 
meus amigos. Danamos, bebemos ponche e comemos. Josh passou a maior parte do tempo ao meu lado, embora Billy Ross tambm me convidasse para danar.
Mais tarde, cortei o enorme bolo de aniversrio. Tive de soprar as velas. Todos cantaram "Parabns pra Voc", menos minha av, que se manteve imvel, com uma expresso 
infeliz. Enquanto comamos o bolo, abri os presentes, todos aplaudiram as roupas bonitas, o secador de cabelos, as jias. Meus avs haviam me comprado
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um par de luvas de couro, pelo menos dois nmeros maior.
Detestei quando a festa terminou. Josh ficou e lembrou que eu lhe prometera mostrar nosso lago. Informei a Sanford para onde amos e samos de casa. O cu estava 
nublado, o tempo um pouco frio. Vesti meu casaco de couro novo, presente de Sanford e Celine.
-  uma casa bem grande - comentou Josh. - Duas vezes maior do que a minha. Com um terreno to grande que dava para fazer um campo de beisebol. Voc tem sorte.
-  verdade, tenho sorte.
Paramos no alto da encosta, contemplando o lago.
- Fico contente que voc tenha sido transferida para a nossa escola, Janet. Se no fosse por isso, talvez eu nunca a tivesse conhecido.
- No teria mesmo.
Pensei no lugar de onde vinha. Quase que fui tentada a contar a verdade. Josh era maravilhoso, mas receei que ele mudasse e passasse a fingir que no me conhecia 
depois de ouvir a palavra rf.
- Podemos dar uma volta no barco? - perguntou ele, assim que o viu no atracadouro.
- Meu pai no quer que eu ande no barco sem a presena de um adulto. No sei nadar.
-  mesmo? Como  possvel? Dei de ombros.
- Nunca aprendi.
Seus olhos se contraram, as sobrancelhas quase se tocaram. Mas depois ele sorriu.
- Talvez eu ensine voc a nadar neste vero.
- Eu gostaria muito.
- Ainda no dei um beijo de aniversrio em voc. No me mexi. Josh inclinou-se para mim, lentamente. Fechei os olhos. Ali, no alto da encosta, por trs
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de minha nova casa, fui beijada nos lbios pela primeira vez. No durou muito. Houve at um pequeno choque da frico, mas achei que foi o beijo mais maravilhoso 
do mundo, melhor do que qualquer outro que eu vira na televiso ou no cinema. A sensao de calor subseqente perdurou por um momento em torno do meu corao, depois 
escorreu para a memria, onde permaneceria para todo o sempre.
- Janet! - Viramos para ver Sanford nos fazendo um sinal. - O pai de Josh veio busc-lo.
- J estamos indo! - gritei em resposta.
Comeamos a voltar para a casa. Josh pegou minha mo. Nenhum de ns dois falou. Ele me soltou antes de contornarmos a casa, at o lugar em que seu pai esperava.
- At segunda na escola - murmurou Josh.
Desejei poder beij-lo em despedida, mas ele parecia embaraado e se encaminhou apressado para o carro do pai. Partiu um momento depois, acenando em despedida. Minha 
festa de aniversrio acabara. Senti-me como acontecia ao recebermos uma maravilhosa sobremesa especial no orfanato. Quando estava chegando ao fim, eu queria prolongar 
ao mximo os ltimos momentos de prazer.
Tornei a entrar. Mildred estava ocupada com a limpeza da sala, mas no parecia irritada pelo trabalho extra. Ofereci-me para ajudar, mas ela riu e disse que no 
precisava me preocupar. J ia subir para tirar o vestido da festa quando ouvi vozes na sala de jantar. Meus avs ainda estavam na casa, tomando caf e conversando 
com Celine.
Fiquei com receio de interromp-los. Hesitei, junto da porta. Pouco antes de decidir que entraria e tentaria conhec-los um pouco melhor, ouvi minha av dizer:
- Ela sempre ser uma estranha para mim, Celine.
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No  do nosso sangue e o sangue  a coisa mais importante numa famlia.
- Isso  um absurdo, mame. De qualquer maneira, no estou preocupada com a famlia. No quero apenas uma filha. Qualquer pessoa pode ter uma filha. Quero uma bailarina.
Senti um aperto no corao ao ouvir suas palavras. O que ela queria dizer com isso?
- Mais razo ainda para questionar o que est fazendo, Celine. Vi a garota na apresentao. O que a levou a acreditar que ela tinha alguma coisa especial?
- Mas ela tem - insistiu Celine.
- Se tem, guarda muito bem escondido. Onde ela se meteu? Era de se esperar que demonstrasse algum respeito. Afinal, dei-me ao trabalho de vir at aqui.
Decidi que essa era a minha deixa e entrei na sala.
- Ol. - Minha voz tremia, tinha o estmago embrulhado por causa das palavras de Celine. - Obrigada pelo presente, vov e vov.
Meu av balanou a cabea e sorriu. Minha av contraiu os cantos dos lbios.
- Temos de ir agora - disse ela. - Seu irmo  uma constante preocupao para mim, Celine. Acho que ele vai acabar se casando com uma de suas vagabundas e desgraar 
a todos ns um dia desses.
Ela se levantou, enquanto Celine dizia:
- A culpa  sua. Voc o mimou demais.
- No mimei, no. Seu pai  quem mimava Daniel.
- Ele vai acabar bem - interveio Sanford. - Est apenas cometendo as loucuras da mocidade.
- Acha mesmo? - disse minha av. - Mas quando essa mocidade vai acabar?
Sanford riu e acompanhou-os at a porta principal.
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Meu av passou a mo por minha cabea na passagem e murmurou algo como "Muitos retornos felizes".
Fiquei na sala com Celine, na cadeira de rodas, remoendo em silncio.
- Obrigada pela festa - murmurei.
Ela levantou os olhos abruptamente, como se acabasse de descobrir que eu ainda me encontrava ali.
- Onde voc se meteu?
- Fui dar uma volta com Josh para mostrar o lago. Celine impulsionou a cadeira em torno da mesa e se aproximou de mim.
- Precisa tomar cuidado com os meninos, Janet. No pude deixar de sorrir. Tinha apenas treze anos.
- Sei o que est pensando. Acha que tem bastante tempo para se preocupar com o romance... mas no tem. Acredite em mim. No voc.  especial. No quero que transforme 
o crebro em gelatina por causa do amor. S serve para distrair, e esta manh voc viu o que a distrao pode fazer.
Ela chegou ainda mais perto, at nos fitarmos nos olhos.
- O sexo consome sua energia criativa, Janet. Pode esgot-la. Quando eu danava e me aproximava do auge de meu desenvolvimento, abstinha-me de todas as atividades 
sexuais com Sanford. Por muito tempo, at dormimos em quartos separados.
No falei nada. No me mexi. Acho que nem sequer pisquei.
- Tinha muitos garotos atrs de mim, ainda mais na sua idade, mas no dispunha de tempo para desperdiar em paixes tolas. Voc tambm no precisa encorajar nenhuma. 
- Celine comeou a se afastar, mas logo tornou a parar. - Amanh tentaremos compensar o dia de hoje.
Ela me deixou parada ali, olhando pela porta.
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"Compensar o dia de hoje?" Ela falara como se meu aniversrio e a festa fossem uma total inconvenincia.
Tinha uma av que no me queria e uma me que s me queria para ser a bailarina que ela no podia mais ser.
No, Josh, pensei, talvez eu no seja to afortunada quanto voc imagina.
L fora, o cu se tornava mais escuro. A chuva comeou, e as gotas que batiam nas janelas pareciam lgrimas do cu.
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Onze

Depois que Celine e eu comeamos a trabalhar nos fins de semana, essas horas de prtica tornaram-se uma parte regular da minha agenda. Sanford ainda tentou, em diversas 
ocasies, planejar excurses familiares, passeios, compras, cinema, ou apenas um jantar num bom restaurante. Celine no apenas rejeitava suas sugestes, mas tambm 
se mostrava contrariada e furiosa com ele por apresent-las.
Depois da festa do meu aniversrio, passei a ser convidada para ir s casas das outras garotas. Uma noite fui convidada para uma festa de pijama na casa de Betty 
Lowe. Celine sempre encontrava um motivo para que eu no fosse, o principal sendo o de que eu ficaria acordada at tarde, acabaria me cansando e comearia os ensaios 
atrasada.
- Os pais no tomam conta direito de suas filhas hoje em dia - declarou ela. - No tenho certeza se haver adultos presentes na casa. Sei muito bem o que costuma 
acontecer nessas festas s de meninas. Os garotos sempre aparecem e ento... as coisas acontecem. No que eu comparecesse a qualquer festa assim... sabia o que queria 
e no permitia que nada me distrasse.
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-Tentei explicar a situao s minhas novas amigas. Mas depois que recusei meia dzia de convites, deixei de receb-los. Mais uma vez, senti que havia uma enorme 
distncia me separando dos outros alunos da escola. At mesmo Josh comeou a perder o interesse por mim, j que nunca tnhamos uma oportunidade de ficar a ss. Uma 
ocasio e apenas porque Sanford persuadira Celine a me levar para a fbrica depois da aula de bal no sbado, pude me encontrar com Josh numa lanchonete. Sanford 
sabia que era por isso que eu queria acompanh-lo. Deixou-me ficar ali por quase duas horas at o momento de voltar para casa.
- Provavelmente  melhor voc no mencionar o encontro a Celine - sugeriu ele. - No porque queremos esconder segredos dela, mas apenas porque no quero que Celine 
se preocupe.
Concordei com a cabea. Sanford nem precisava falar. Eu jamai sonharia em mencionar o assunto para ela.
Fiz o melhor que podia para explicar a situao a Josh, mas ele no conseguiu compreender como a dana me impedia de fazer quase tudo que os outros adolescentes 
podiam fazer. A crise explodiu quando ele me convidou formalmente para ir ao cinema. Seu pai nos levaria de carro Sanford concordou, mas Celine disse no. Tiveram 
a pior discusso desde que eu chegara na casa.
- Desta vez  apenas uma noite no cinema, depois um sorvete e um sorvete com toda a gordura de que ela no precisa. Amanh ser um dia e uma noite no fim de semana 
E depois ela vai querer passar o fim de semana inteiro com amigas que no tm nada no crebro e possuem dois ps esquerdos.
- Ela s tem treze anos, Celine.
- Aos treze anos eu j tinha me apresentado em doze programas e danara em A Bela e a Fera no Centro de Artes de Albany. J viu os recortes
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- Voc  voc. Janet  Janet.
- Janet tem oportunidades agora que nunca poderia ter antes, Sanford.  quase um pecado fazer qualquer coisa que possa frustrar ou diminuir essas oportunidades.
Celine no se deixaria convencer do contrrio.
- Mas...
- No acha que j causou danos suficientes ao bal por uma vida inteira, Sanford?
Naquela noite, quando ele foi ao meu quarto, eu j sabia qual era a deciso.
- Sinto muito, Janet. Celine acha que voc  jovem demais para esse tipo de coisa.
Sanford falou de cabea baixa, os olhos fixados no cho.
- Pensarei em alguma coisa agradvel para fazermos em breve.
Ele saiu, deixando-me chorar em paz. Josh ficou murcho e plido quando avisei que no poderia sair com ele naquela noite de sexta-feira. Tentei dar uma explicao, 
mas Josh se limitou a sacudir a cabea.
- Qual  o problema? Seus pais acham que no sou bastante rico para voc?
Josh virou-se e me deixou parada sozinha ali, no corredor da escola, antes que eu pudesse negar.
Experimentei a sensao de que ingressava agora no mundo particular de sombras de Celine. Uma das colegas me telefonou e zombou:
- Tanto trabalho e nenhuma diverso fazem de Janet uma chata.
O mundo que se tornara cheio de sol e cores passou a ter tonalidades de cinza. Mesmo nos dias de cu claro, eu sentia que nuvens pairavam sobre a minha cabea. Meu 
desnimo impregnou o desempenho nas aulas. Os olhos de Madame Malisorf assumiram uma
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expresso desconfiada. Celine me fizera prometer que jamais contaria como trabalhvamos nos fins de semana, mas Madame Malisorf era muito perceptiva.
- No est descansando as pernas? - perguntoume ela uma tarde.
Celine estava em seu canto habitual, observando. Lancei um olhar para ela. Madame Malisorf percebeu e virou-se.
- Celine, voc est trabalhando esta aluna sete dias por semana?
- De vez em quando ensaio alguns passos com ela, Madame Malisorf. Ela  jovem e...
- Quero que ela tenha um descanso de vinte e quatro horas no mnimo. Os msculos precisam de tempo para se recuperar. Cada vez que fazemos exerccios, ns os desgastamos. 
E voc, entre todas as pessoas, devia saber disso. - Madame Malisorf balanou a cabea. - Cuide para que ela tenha o repouso necessrio.
Celine prometeu, mas no cumpriu a promessa; e se eu abordava o assunto, ela entrava num acesso de raiva, depois caa em depresso. Ia para um dos cantos escuros 
da casa e ficava olhando desconsolada para os retratos de seu antigo eu. s vezes ela lia e relia um programa de bal. Eu a encontrava adormecida na cadeira de rodas, 
o programa no colo, apertado entre os dedos. Eu no tinha nimo para oferecer qualquer resistncia.
Tentei fazer melhor, ser pontual, atingir todos os objetivos. Agora, sem amigas para me telefonar, fazia os deveres de casa e me deitava cedo. Fazia at o que ela 
me aconselhara quando eu ingressara na escola. Aleguei sentir clicas para evitar a aula de educao fsica em algumas ocasies. Precisava conservar minha energia. 
Tinha pavor de me mostrar cansada ou lenta.
O vero se aproximava do fim, trazendo a promessa de freqentar uma prestigiosa escola de bal. O
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dinheiro, porm, no podia comprar uma vaga na escola. Todos os candidatos tinham de fazer uma audio. A nova obsesso de Celine era me preparar para isso. Madame 
Malisorf concordou em me ajudar a conquistar uma vaga. Achava que era uma boa idia a minha ida para a escola, j que passaria a maior parte do vero na Europa, 
como costumava fazer. Minhas aulas se tornaram revises dos passos fundamentais. Dimitri quase nunca aparecia. J fora aceito por uma escola de bal da cidade de 
Nova York e se preparava para o novo treinamento.
Tnhamos de viajar para Bennington, Vermont, onde seria realizada a audio para a escola de bal. Eu me sentia animada, porque passaria oito semanas na escola. 
Lera o programa e os horrios, sabia que haveria mais tempo para descanso e recreao do que tinha agora.  verdade que quase qualquer lugar me daria mais tempo. 
Ao final do folheto da escola havia depoimentos de ex-alunos. Muitos falavam sobre os eventos sociais, os cantos em torno da fogueira de acampamento, o baile social 
semanal, as pequenas excurses de nibus a museus e locais histricos. Nem tudo tinha a ver com o bal. A filosofia da escola era a de que uma pessoa com um desenvolvimento 
mais amplo podia se tornar uma artista mais completa. O custo era bastante elevado e me surpreendia que tantas pessoas competissem para gastar tanto dinheiro.
Na ltima aula antes da audio, Madame Malisorf me submeteu ao que previa que seria o teste da escola. Postou-se ao lado de Celine e tentou fazer um julgamento 
objetivo. Ao final, ela e Celine conversaram em voz baixa por um momento. Depois, Madame Malisorf sorriu e disse:
- Eu lhe daria um lugar na minha escola, Janet. Teve uma melhoria considervel e alcanou uma qualidade
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de desempenho que justificaria o investimento de mais tempo e esforo.
Celine estava radiante. Tambm me senti feliz, porque queria ingressar na escola. Creio que uma parte de mim, uma parte bem forte, queria escapar por algum tempo, 
no ter um sentimento de culpa em cada passo errado. Antes de ir embora, Madame Malisorf advertiu Celine a no me desgastar.
- Ela  um artigo frgil agora, Celine. Ns a levamos longe, talvez longe demais muito depressa, mas ela chegou l. Agora, vamos deix-la se desenvolver num ritmo 
normal. Caso contrrio... - Ela me fitou. - Podemos arruinar o que criamos.
- No se preocupe, Madame. Cuidarei dela to bem quanto cuidava de mim, se no melhor ainda.
Apesar dos dias rduos e aulas difceis, apesar de seus olhos crticos e comentrios muitas vezes rspidos, eu passara a apreciar e respeitar Madame Malisorf. Sentia 
at algum medo do que poderia acontecer sem ela para supervisionar tudo. Mas antes de partir ela me assegurou que os professores na escola seriam da mais alta qualidade.
- Eu a verei de novo em setembro, Janet. Assim que ficamos a ss, Celine declarou:
- Eu sabia que ela passaria a consider-la da mesma maneira que eu. Devemos continuar a nos preparar. Isto  maravilhoso!
Durante os dias subseqentes ela se mostrou to animada e excitada quanto nos primeiros dias de minha chegada.
Sanford, no entanto, parecia mais perturbado. Os problemas na fbrica absorviam mais e mais do seu tempo. Ele vivia me pedindo desculpas. Era como se lamentasse 
ter de me deixar a ss com Celine por tanto tempo. Celine no se mostrava nem um pouco interessada
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pela fbrica, no tinha pacincia para escutar qualquer coisa que Sanford dissesse. Concentrava-se em minha audio. Parecia que no pensava em nenhuma outra coisa 
desde o momento em que se levantava at o momento em que dormia.
E de repente, uma semana antes da audio, surgiu uma nova crise na famlia. Daniel sara de casa e casara com uma mulher que engravidara. Meus avs ficaram acabrunhados. 
Realizaram uma reunio de famlia em nossa casa. No fui convidada, mas eles falaram em voz to alta que eu teria de ser surda para no ouvir.
- Meus dois filhos saem de casa e fazem coisas impulsivas! - exclamou minha av. - Ningum pensa mais na famlia!
Ouvi todos tentando acalm-la, mas ela estava fora de si. Falaram sobre a nova esposa de Daniel, como ela vinha de uma classe inferior.
- Que tipo de criana uma mulher assim poderia gerar? - indagou vov. - Devemos repudiar os dois. No h outro jeito.
Se o fizessem, o que aconteceria com o beb? Por acaso se tornaria um rfo como eu?
A discusso terminou em soluos. Pouco depois, meus avs saram da sala, vov com uma aparncia transtornada, os olhos injetados, a maquilagem borrada. Ela olhou 
para mim, depois virou-se e se apressou em deixar a casa.
Daniel foi o tema principal da conversa no incio do jantar naquela noite, mas Celine logo o encerrou, bruscamente.
- No quero mais ouvir o nome dele esta semana. No quero que nada nos distraia de nosso objetivo, Sanford. Vamos esquec-lo.
- Mas seus pais...
- Eles vo superar.
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Celine virou-se para mim, passando a falar sobre as coisas que deveramos aperfeioar para a minha apresentao.
O dia finalmente chegou. Tive dificuldade para dormir na noite anterior, com pesadelos constantes. Na maioria, eu caa ou sentia uma vertigem na pirouette, o movimento 
se tornava horrvel. Via cabeas balanando e Celine se encolhendo na cadeira de rodas.
No instante em que mexi as pernas para sair da cama, pela manh, senti a dor no estmago. Era como se houvesse um punho fechado dentro de mim. A dor na altura dos 
rins era to intensa e profunda que trouxe lgrimas a meus olhos. Engoli em seco e respirei fundo, vrias vezes. Um filete quente na parte interna da coxa irradiou 
calafrios de terror para os ps, subindo de volta pelo corpo para ricochetear na cabea e fazer o crebro latejar. Cautelosa, em centmetros de cada vez, estendi 
a mo. Soltei um grito ao ver sangue nas pontas dos dedos.
- No! No agora! No hoje! - supliquei a meu corpo insistente.
Virei as pernas, pus os ps no cho. Mas quando apoiei o peso do corpo, as pernas cederam. Ca de quatro no cho, a dor cada vez pior, quase me sufocando. Fiquei 
estendida de lado, me encolhi na posio fetal, tentando respirar. Foi quando a porta do quarto se abriu e Celine entrou na cadeira de rodas, o rosto transbordando 
de excitamento, enquanto gritava:
- Acorde! Acorde! Hoje  o nosso grande dia! Acor...
Ela ficou imvel, as mos paradas no alto das rodas, enquanto me fitava.
- O que est fazendo, Janet?
- ... minha menstruao, mame. Descobri que
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sangrava ao acordar. Tenho clicas e dores nas costas. E ainda por cima sinto uma terrvel dor de cabea. Cada vez que levanto a cabea, parece que bilhas esto 
rolando l dentro.
- Por que no ps a proteo que comprei para voc? Deveria sempre se antecipar. Foi o que eu falei.
- Nunca me disse para fazer isso antes de dormir, todas as noites.
- Isso  ridculo. E agora trate de se levantar. Tome um banho e vista-se. Mandarei Mildred trocar as roupas da cama. Levante-se!
Ouvi os passos de Sanford subindo a escada.
- O que aconteceu, Celine? Por que est gritando? Qual  o problema? - Ele passou pela porta e parou logo atrs de Celine. - Janet!
- No  nada. Ela apenas ficou menstruada.
- Di muito... - balbuciei.
- No seja ridcula - insistiu Celine.
- Se ela diz que di, Celine...
- Claro que di, Sanford. Nunca  agradvel. Mas ela est apenas sendo melodramtica.
- Acho que no. J ouvi falar de garotas ficando praticamente incapacitadas de fazerem qualquer coisa. Minha irm teve de ser quase carregada da escola para casa. 
Lembro...
- Sua irm  uma idiota. - Celine chegou perto de mim. - Levante-se agora.
Fiz um esforo para sentar. Depois, apoiando-me na cama, comecei a me levantar. Sanford se adiantou apressado e ajudou-me a ficar de p.
- Voc vai estragar o tapete! - gritou Celine. - V logo para o banheiro! No tem nenhum orgulho?
- Pare de gritar com ela - murmurou Sanford. Ele me ajudou a ir para o banheiro, depois saiu.
Lavei-me e ajeitei o absorvente ntimo. Tive de sentar
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na tampa do vaso fechado para recuperar o flego. A dor no diminua.
- O que est fazendo a dentro? - gritou Celine, chegando  porta do banheiro.
Estendi as mos para a pia e me levantei. Cada passo acarretava mais dor. Abri a porta e olhei para ela.
- Di demais, mame...
- J vai passar. Vista-se. Partiremos dentro de uma hora.
Ela virou-se e deixou o quarto. Sa do banheiro. As clicas continuavam a me apertar a barriga. Tentei me movimentar pelo quarto, pegar o vestido no closet, calar 
os sapatos, mas a dor era cada vez pior. A nica posio que proporcionava algum alvio era deitar de lado e erguer as pernas.
Como eu poderia danar hoje? Como poderia dar os saltos e pirouettes? O mero pensamento de ficar em pointe provocava ainda mais dor nas costas e barriga. A cabea 
latejava.
- O que est fazendo? - gritou Celine, na porta do quarto. - Por que ainda no se vestiu?
No respondi. Apertava a barriga com as duas mos, procurando respirar fundo.
- Janet!
- O que est acontecendo agora? - perguntou Sanford.
- Janet ainda no se vestiu. Olhe s para ela.
- Janet! - gritou Sanford ao me ver. - Voc est bem?
- No. Cada vez que tento me levantar, di demais.
- Ela no pode ir hoje, Celine. Voc tem de adiar.
- Ficou louco, Sanford? No se pode adiar a apresentao. H muitas garotas disputando uma vaga. Vo preencher a quota antes que ela tenha tempo de mostrar o que 
sabe. Temos de ir de qualquer maneira.
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- Mas ela nem consegue ficar de p!
- Claro que consegue. Levante-se.
Celine impulsionou a cadeira de rodas at a cama. Sanford estendeu as mos para det-la.
- Celine, por favor!
- Vamos, levante, sua pirralha ingrata! Levante-se! Eu tinha de tentar. Pus os ps no cho. Sanford ficou observando enquanto eu fazia o esforo. No instante em 
que ergui o corpo, a dor na barriga subiu para o peito. Soltei um grito, dobrei-me, ca de volta na cama.
- Levante-se! - berrou Celine. Sanford virou a cadeira de rodas.
- Pare com isso! Ela tem de ir! Pare com isso, Sanford! Pare!
Ele continuou a empurr-la para fora do quarto.
- Talvez ela precise de algum medicamento - declarou Sanford. - Tenho de lev-la ao mdico.
- Isso  um absurdo, seu idiota! Ela no vai conseguir entrar na escola! Janet!
A voz ressoou pelo corredor. Meu corpo ficou tenso. Sentia-me apavorada. Fechei os olhos e apertei-os com toda fora, para apagar o mundo ao meu redor. Havia um 
zumbido em meus ouvidos. Logo fui envolvida pela escurido, uma escurido tranqila e confortvel, em que no mais sentia a dor e a agonia.
Tive a sensao de que flutuava. Os braos haviam se transformado em asas, finas como papel. Eu vagava pela escurido na direo de um ponto de luz. Era fcil e 
maravilhoso. Planava e virava, descia e subia, batendo as asas sem o menor esforo.
Passei pelo que parecia ser um corredor com paredes de espelhos, sempre batendo as asas. Olhei para mim, enquanto me aproximava da luz.
E, espantosamente, descobri que era uma borboleta.
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Doze

- Qual  o problema? - ouvi algum perguntar.
A voz soava muito distante, como se estivesse no fim de um tnel; por isso, era difcil reconhec-la.
- Todos os sinais vitais so fortes.  alguma espcie de ataque de ansiedade, Sanford.
- Isso  um absurdo! - exclamou outra voz, enquanto a escurido comeava a diminuir. - Ela no tem nada que possa deix-la ansiosa! Tem mais do que a maioria das 
garotas de sua idade jamais sonhou!
- Voc no sabe tanto sobre o passado dela quanto imagina, Celine. H muitas coisas trabalhando no subconsciente. E tudo isso pode ser decorrente do trauma psicolgico 
de ter a primeira menstruao.
- J ouviu alguma coisa to absurda, doutor? Por favor, receite um medicamento para que ela fique logo boa.
- No h nenhum remdio para este caso, Celine, a no ser um pouco de tempo e muito carinho.
- O que acha que ela vem recebendo?
- Celine! A voz forte de Sanford rompeu a escurido.
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- Ele fala como se estivssemos torturando a menina.
A escurido diminuiu ainda mais, a luz se tornou mais forte, mais ampla. Minhas plpebras tremeram.
- Ela est acordando.
Abri os olhos e deparei com o rosto do dr. Franklin.
- Ol - murmurou ele, sorrindo. - Como se sente? Eu me sentia confusa. Tornei a fechar os olhos e tentei pensar. Logo abri-os e olhei ao redor. Ainda estava em meu 
quarto. Celine se encontrava ao p da cama, Sanford ao seu lado, com as mos no encosto da cadeira de rodas.
- Pode sentar? - perguntou o mdico.
Acenei com a cabea e comecei a me erguer. Estava um pouco tonta, mas logo passou. Sentia uma dor difusa nas costas, o estmago nauseado. Olhei para o relgio e 
verifiquei que j era o meio da tarde.
- Ela vai ficar boa - disse o mdico. - S precisa de um dia de descanso. O pior j passou.
-  mesmo? - indagou Celine, sarcstica.
Ela sacudia a cabea e me fitava com uma expresso furiosa. O mdico fechou a maleta e saiu do quarto com Sanford. Celine impulsionou a cadeira de rodas para mais 
perto de mim.
- No sei o que aconteceu comigo, mame. Vou me vestir agora.
- Vestir? - Ela soltou uma risada estridente e as- sustadora. - Para qu? J acabou. No tem mais nenhuma chance de entrar na escola. Perdemos a audio.
- No podemos marcar outra?
Eu sentia a garganta ressequida, doa quando falava.
- No. No serviria para nada. Avaliaram dezenas de garotas e a esta altura j preencheram todas as vagas.
- Sinto muito.
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- Eu tambm. Todo o trabalho, as horas e horas de aulas, as melhores sapatilhas...
Celine balanou a cabea, virou a cadeira de rodas e saiu do quarto. Saltei da cama e me encaminhei para o banheiro. Tinha a sensao de que andava sobre um cho 
de bales. Meus tornozelos fraquejavam a princpio, mas logo se tornaram mais fortes. Molhei o rosto com gua fria, escovei os cabelos. Ainda me sentindo fraca, 
fui at o closet e peguei um vestido. Mildred entrou no quarto no momento em que acabava de me vestir.
- O sr. Delorice mandou-me verificar se voc est com fome. Posso trazer o que quiser.
- No precisa se preocupar. Posso descer. Obrigada, Mildred.
Ela disse que me faria uma sopa e um sanduche de queijo quente. Respondi que era uma boa idia. Quando sa para o corredor, vi que a porta do quarto de Celine estava 
aberta. Fui dar uma espiada. Ela se encontrava deitada na cama, olhando para o teto.
- J estou me sentindo melhor. - Como ela no dissesse nada, perguntei: - Voc est bem, mame?
Celine fechou os olhos. Meu corao disparou. Ela ficara to zangada comigo que agora fingia no me ouvir? Desci to depressa quanto podia. Encontrei Sanford em 
seu escritrio, falando com algum na fbrica. Ele acenou quando apareci na porta, indicando que estaria comigo dentro de um instante. Fui para a sala de jantar. 
Mildred me levou a sopa e o sanduche.
- Celine est muito zangada comigo? - perguntei a Sanford, quando ele entrou na sala.
- Claro que no. Ela ficou desapontada, mas tudo estar melhor pela manh.  o que sempre acontece. Como voc se sente agora?
- Estou melhor, mas ainda com a sensao de que escalei uma montanha enorme e corri por quilmetros.
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Sanford sorriu e balanou a cabea.
- Acho que  verdade quando dizem que os homens tm uma vida mais fcil. Vou ver como Celine est.
Quando tornou a descer, ele parecia mais preocupado. Ofereceu-me um sorriso rpido e disse que precisava dar um pulo  fbrica, mas no ia demorar.
- Celine est descansando, Janet. Tente no perturb-la.
Subi sem fazer barulho, pensando em dar outra espiada em Celine. Mas encontrei a porta fechada. Permaneceu fechada pelo resto do dia e durante a noite. Assisti televiso, 
li um pouco, fui para a cama antes de Sanford voltar da fbrica.
Sentia-me melhor quando acordei na manh seguinte. O sol brilhava atravs das cortinas. Tive vontade de usar uma roupa alegre. Escolhi uma blusa amarela e saia branca, 
com os tnis azuis que Celine e Sanford haviam me comprado na primeira semana. Ao sair para o corredor, vi que a porta do quarto de Celine continuava fechada. Imaginei 
que Sanford estava l embaixo,  mesa da sala de jantar, lendo o jornal e esperando por mim. Era o que ele fazia quase todas as manhs desde que haviam me trazido 
do orfanato.
Quando desci, no entanto, no encontrei ningum na sala de jantar. Mildred veio da cozinha e informou que Sanford levantara muito cedo, j sara de casa.
- E minha me? - perguntei.
- Levei o caf da manh no quarto. Mas ela quase no tocara no jantar e no parecia muito interessada em comer qualquer coisa agora. Quase no falou. - Mildred sacudiu 
a cabea. - Acho que ela est doente.
- Talvez Sanford tenha sado para buscar o mdico.
- No. - A maneira como Mildred contraiu os lbios dizia que ela sabia de muito mais. - Ele no foi buscar o mdico.

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- O que est acontecendo, Mildred? Qual  o problema?
- No sei qual  o problema, mas o sr. Delorice parecia muito preocupado com a fbrica esta manh. No que eu escute as conversas pelo telefone...
- Sei que no escuta, Mildred. Por favor, conte tudo o que sabe.
- Alguma coisa aconteceu na fbrica esta semana, mas no sei o que foi. S posso dizer que o deixou perturbado. Vou preparar seu caf da manh.
- Verei como est minha me primeiro.
Subi apressada a escada. Bati na porta de Celine, mas ela no respondeu. Esperei um momento, depois abri a porta lentamente e dei uma espiada.
Celine estava sentada na cadeira de rodas, olhando por uma janela. Ainda usava a camisola, tinha os cabelos desgrenhados. No usava batom.
- Mame? - murmurei, aproximando-me. Ela no respondeu. Continuou a olhar pela janela. Falei mais alto. - Est bem, mame?
Subitamente, ela desatou a rir. Comeou com um rumor baixo na garganta. Depois, o rosto se desmanchou num sorriso largo, com uma expresso desvairada nos olhos. 
A risada se tornou mais alta, mais estranha. Lgrimas escorriam dos olhos. Os ombros tremiam. Ela ps as mos nas rodas da cadeira, impulsionou para a frente, depois 
para trs, outra vez para a frente, at bater na parede.
- O que est fazendo, mame? Por que faz isso? Ela riu e continuou.
Dei um passo para trs.
- Pare com isso! - gritei. - Por favor!
A risada tornou-se ainda mais alta, enquanto ela impulsionava a cadeira de rodas para a frente e para trs, a cada vez batendo com mais fora na parede.
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- Mame! Pare!
Ela no parou. Virei-me e sa correndo do quarto, para deparar com Sanford, que subia a escada.
- H alguma coisa errada com Celine! - gritei para ele. - Ela no pra de rir e fica jogando a cadeira contra a parede!
- O qu? Oh, no!
Ele passou por mim e entrou no quarto. Ouvi-o suplicar para que Celine parasse. A risada ainda era muito alta. Tive de tapar os ouvidos, de to assustadora que era. 
Mildred apareceu na base da escada.
- O que est acontecendo, Janet?
- Celine no pra de rir.
- Oh, no! - Mildred balanou a cabea. - Ela j fez isso uma vez antes.
Mildred afastou-se, tornando a sacudir a cabea. Olhei para o quarto de Celine, o corao batendo to forte que pensei que romperia o peito.
A risada finalmente cessou. Comecei a me encaminhar para o quarto, mas Sanford fechou a porta antes que eu chegasse l. Fiquei parada no corredor por um momento, 
depois desci para esperar. Mildred me serviu um suco, torradas e ovos, mas eu no podia comer qualquer coisa. No muito depois ouvi a campainha da porta. Mildred 
foi abrir. Era o dr. Franklin. Ele subiu apressado. Tambm subi, mas a porta do quarto foi fechada outra vez.
O mdico permaneceu l dentro por um longo tempo. Desci para esperar l embaixo. Acabei saindo da casa, fui sentar no banco sob os salgueiros-chores. Era um lindo 
dia, com umas poucas nuvens brancas aqui e ali. Os passarinhos cantavam e voavam ao meu redor. Um esquilo curioso parou e ficou me olhando, mesmo quando comecei 
a falar. Depois, subiu por uma rvore.
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Numa manh to gloriosa, como as coisas podiam ser to cinzentas e melanclicas em meu corao?
Finalmente a porta da frente da casa foi aberta. Sanford e o dr. Franklin conversaram ali em voz baixa por um momento. Trocaram um aperto de mo e o mdico dirigiu-se 
para o carro. Levantei-me e ele olhou para mim.
- Como se sente hoje?
- Muito melhor. Como est minha me?
- Sanford vai conversar com voc.
Depois dessa resposta enigmtica, ele entrou no carro. Observei-o partir, antes de seguir apressada para a casa. Encontrei Sanford ao telefone outra vez. Ele ergueu 
o indicador direito, depois virou a cadeira, ficando de costas para mim, enquanto continuava a conversa. Eu no sabia para onde ir. Sentia-me de repente completamente 
perdida. A porta do quarto de Celine ainda estava fechada. Vagueei pela casa, parei no estdio. Subi para o meu quarto, sentei na cama, esperei. Tive a impresso 
de que uma eternidade passara at que Sanford subisse.
- Desculpe, Janet. Estou enfrentando uma crise na fbrica. Meu gerente industrial vinha desviando material, mas por sorte descobri a tempo. Poderia ter ido  falncia. 
Mas tive de superar os problemas junto com os gerentes administrativo e financeiro, alm da polcia. Ainda no consegui resolver tudo. Estou no meio do processo 
para... Celine no est bem.
- O que h de errado com ela? - perguntei, com lgrimas nos olhos. -  culpa minha?
- Claro que no.
Sanford fitou-me em silncio por um momento, depois respirou fundo. Olhou pela janela, os olhos midos, sacudiu a cabea.
- A culpa  toda minha. Fui eu quem a ps naquela
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cadeira de rodas, no voc. Tirei a coisa mais importante para ela, o que lhe dava uma razo para existir. Apenas temos fingido que vivemos desde ento. Uma manh 
ela acordou com a idia de adotarmos algum como voc. Achei que era a nossa salvao... a minha salvao, eu deveria dizer.
Ele atravessou meu quarto, foi se postar junto da janela. Continuou a falar de costas para mim.
- No pensei direito. Deveria ter compreendido o que voc, o que qualquer uma em seu lugar, teria de suportar. No era justo.
- No me importei. Tem sido difcil, mas...
- Tem sido cruel - corrigiu Sanford, virando-se para mim. -  isso mesmo. Sua infncia foi negligenciada, ignorada, sacrificada para satisfazer um sonho irrealista. 
Voc nunca pode ser o que Celine quer... no pode lhe devolver suas pernas, sua carreira, seu sonho. Ningum pode, nem mesmo a bailarina mais talentosa. Ela tentou 
viver por seu intermdio. Lamento dizer que deixei que isso acontecesse, porque me proporcionava alguma paz e alvio dos meus opressivos sentimentos de culpa.
Ele fez uma pausa, sorriu.
- De certa forma, Janet, eu tambm a tenho explorado. Peo que me desculpe.
- No estou entendendo.
- Sei que no entende. Mas foi demais para impor a algum de sua idade.  uma injustia sobrecarreg-la tanto. E esta famlia tem mais problemas do que qualquer 
um pode imaginar.
Com as mos nas costas agora, Sanford continuou:
- Seja como for, no posso mais ignorar os problemas mais profundos de Celine. Ela vai precisar de ajuda profissional. Ser uma jornada longa e rdua, que talvez 
nunca termine. Lamento muito ter permitido que voc
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fosse envolvida. Mas ainda  bastante jovem para ter outra chance, uma chance melhor de uma vida boa e saudvel.
- Como assim? - balbuciei, com a sensao de que meu corao parava.
- No posso cuidar de Celine e ao mesmo tempo lhe oferecer a vida familiar que voc merece.  melhor para todos se voc tiver outra oportunidade.
- Outra oportunidade?
No era possvel que Sanford estivesse dizendo o que eu pensava.
- No ser agradvel para voc aqui, Janet. No creio que Celine possa melhorar se tiver de ver voc, compreendendo que falhou de novo. No que eu pense que ela 
falhou. Acho que voc se saiu muito bem, Janet. Qualquer um numa situao de famlia normal se orgulharia de voc. Eu me orgulho. Mas tambm tenho medo por voc.
Ele tornou a olhar pela janela, antes de acrescentar:
- A verdade  que tenho medo at por mim. Sanford sorriu para mim. Foi um sorriso corajoso.
- Detesto perd-la, Janet.  uma garota maravilhosa, uma companhia muito agradvel. Esta casa nunca mais ser a mesma. Quero que saiba que voc significa muito para 
mim, Janet. Trouxe um pouco de luz para a minha vida e a nossa casa. Agora  a minha vez de levar luz para a sua vida.
- Vai me mandar de volta? - perguntei, fazendo um esforo para reprimir as lgrimas.
- No quero, mas  a melhor soluo. Tenho de devotar todo o meu tempo  recuperao de Celine. Devo isso a ela, Janet, e tenho certeza de que voc pode compreender. 
No haver ningum para cuidar direito de voc aqui, e receio que Celine no poder ser me para ningum.
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Ele respirou fundo.
- J viu como seus avs so. S se preocupam agora com sua pequena crise com Daniel. Juro que ele faz o que faz apenas para atorment-los. Esta no  uma famlia 
feliz neste momento, muito menos um lugar para se criar uma criana. Voc merece coisa melhor.
-  tudo culpa minha. Porque tive a menstruao no momento errado.
- Est enganada, Janet. Percebo agora que foi uma bno. Vamos supor que voc tivesse ido  apresentao e no fosse escolhida. Celine teria a mesma reao. E se 
fosse escolhida, acabaria tendo outro teste em que no seria aprovada como ela gostaria. Nunca poderia fazer tudo, porque voc no pode ser ela. Acho que Celine 
compreendeu isso; enfrenta o fato e  o motivo pelo qual... vem tendo problemas. A verdade, Janet,  que talvez seja preciso internar Celine. O que seria doloroso 
demais para mim. Sinto muito. E, por favor, no se culpe. Providenciarei tudo o que for necessrio. Tenho certeza de que no passar muito tempo antes que outro 
casal, mais saudvel, a tire do orfanato.
Ele me beijou na testa e se retirou. Continuei sentada, atordoada, correndo os olhos por meu lindo quarto. To depressa quanto me fora dado, agora seria tirado. 
Gostaria de nunca ter vindo para c, pensei. Era pior ter conhecido aquilo e perdido do que nunca ter visto. Quantas mes e pais eu perderia? Quantas vezes teria 
de me despedir?
Eu me sentia furiosa, fervendo por dentro, as emoes se projetando como ondas num furaco. Sentia-me trada. Nunca me fora concedida realmente a oportunidade de 
am-los.
Ao jantar, Sanford me informou que j acertara tudo. O servio de proteo  criana queria que eu fosse
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para um lar provisrio coletivo, onde ficaria at ser adotada de novo.
- Disseram que  uma casa tima e que voc far novos amigos - comentou ele.
- J fiz novos amigos aqui. - Ele balanou a cabea, os olhos tristes.
- Sinto muito, Janet. Parte meu corao. Com toda sinceridade.
Sanford virou-se, mas no antes que eu visse lgrimas em seus olhos. Acreditei nele, mas isso no tornava a situao mais fcil. Ao contrrio, tornava ainda mais 
difcil.
Houve um fluxo de atividade na manh seguinte. Chegou uma enfermeira para ajudar com Celine. Pouco depois, os Westfalls vieram fazer uma visita. A me de Celine 
no me lanou mais que um olhar de passagem ao subir para ver a filha. Depois, Sanford e o sogro foram para o escritrio, a fim de conversarem sobre os acontecimentos 
na fbrica de vidro. Ao partirem, minha av fitou-me na sala de estar, virou-se para Sanford e comentou:
- Celine desperdiou uma preciosa energia para transformar em ouro o que nunca deixar de ser lata.
Eu no sabia direito o que isso significava, mas senti que ela me culpava.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Sanford mandou Mildred ao meu quarto para me ajudar a fazer as malas. Eu ainda no vira Celine, pois ela no sara do quarto e a porta 
continuava trancada. Mas no podia ir embora sem falar com ela pelo menos mais uma vez. Fui at a porta e bati. A enfermeira abriu.
- Quero me despedir.
Ela no ia me deixar entrar, mas Sanford subira para me buscar e disse que no tinha problema. A enfermeira deu um passo para o lado e entrei no quarto.
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Celine estava sentada na cadeira de rodas, junto da janela, olhando para o jardim da frente. Pus a mo sobre a sua e ela virou-se, bem devagar.
- Sinto muito, Celine. Eu queria que voc fosse minha me. Queria danar para voc.
Ela me fitava como se eu fosse uma estranha total.
- Espero que melhore muito em breve. Obrigada por tentar me fazer uma prima ballerina.
Celine piscou.
- Est na hora - murmurou Sanford da porta. Acenei com a cabea, inclinei-me e dei um beijo em seu rosto.
- Adeus.
Quando eu ia me virar, ela pegou minha mo.
- H muita gente no auditrio?
- Como? Celine sorriu.
- J estou me aquecendo. Diga a Madame Malisorf que j estou pronta, sairei num instante. E diga tambm que j comecei a ouvir a msica. Ela gosta disso. Vai dizer 
a ela?
- Claro, Celine, claro.
Eu no tinha a menor idia do que ela falava.
- Obrigada.
Celine virou-se para a janela. Por um momento, pensei ouvir a msica. Lembrei o que ela dissera quando nos encontrramos pela primeira vez:
- Quando voc for boa... e tenho certeza de que ser boa... vai se perder na msica, Janet. Vai arrebat-la...
Era o que acontecia agora, a msica me arrebatava. Fitei-a pela ltima vez e depois deixei sua casa para sempre.
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Eplogo

No olhei para trs quando nos afastamos da casa. Tinha a sensao que deixava um livro de histrias, as capas sendo fechadas por trs. No queria ver o fim da minha 
histria. Queria lembrar a casa para sempre como era: alegre, aconchegante, com a magia das flores e passarinhos, coelhos e esquilos, uma casa de fantasia, a minha 
terra de Oz.
Sentei no banco traseiro do enorme carro. Na mala do carro estava minha bagagem, as roupas e sapatos novos, os trajes de bal, alm das maravilhosas sapatilhas. 
A princpio, no queria levar coisa alguma. Preferia partir com pouco mais do que tinha ao chegar. Mas pensei: se eu no tivesse aquelas coisas, com certeza acordaria 
uma manh e pensaria que sonhara tudo, os rostos, as vozes, at mesmo minha festa de aniversrio.
- Espero que voc continue a danar - comentou Sanford. - Estava se tornando cada vez melhor.
No falei nada. Permaneci em silncio, olhando pela janela do lado, vendo a paisagem passar. Parecia que o mundo estava gravado numa fita que se desenrolava e flutuava 
em nossa esteira. Sanford dizia alguma coisa de vez em quando. Vi que ele me observava pelo
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espelho retrovisor. Seus olhos transbordavam de tristeza e culpa.
- Espero que Celine melhore - murmurei.
- Obrigado.
Mais uma vez, percebi lgrimas em seus olhos, amos para um lar provisrio coletivo, um lugar chamado The Lakewood House. Sanford explicou que era dirigido por um 
casal, Gordon e Louise Tooey, que tinham antes uma pousada para turistas. Ficava a pouco menos de dois quilmetros de carro.
- Ser mesmo um lar temporrio para voc, Janet, tenho certeza.
No caminho, ele queria parar em algum lugar para eu comer, mas respondi que no tinha fome. Quanto mais depressa chegasse e iniciasse minha nova vida, pensei, melhor 
seria. No momento, eu me sentia no limbo.
Sanford seguiu as orientaes escritas, mas perdeu-se uma vez e teve de parar num posto de gasolina para se informar. Finalmente encontramos a rua.
-  ali - anunciou Sanford.
 nossa frente havia uma casa enorme, cinzenta, de dois andares. Tinha tanto se no mais terreno que a casa de Sanford e Celine. Avistei quatro garotas andando juntas 
na direo do que parecia ser um campo de jogo. Dois adolescentes cortavam a grama, enquanto um homem alto e musculoso, com cabelos castanhoescuros e rosto bem definido, 
gritava com algumas outras crianas, que recolhiam a grama cortada.
- Parece agradvel - comentou Sanford. Depois que estacionamos, ele pegou minhas malas.
Uma morena alta, com cabelos na altura dos ombros, presos atrs, saiu pela porta da frente da casa. Parecia ter uns cinqenta anos. Fiquei impressionada com seus 
incrveis olhos azuis.
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- Esta deve ser Janet. Passei o dia inteiro esperando por voc, querida.  sem dvida uma linda menina.
- Tambm acho - murmurou Sanford, sempre triste.
- Seja bem-vinda  Lakewood House, meu bem. Meu nome  Louise. Vou lhe mostrar o seu quarto. - Ela lanou um olhar para Sanford. - No momento, ela ficar sozinha 
num quarto, mas estamos esperando novas crianas em breve.
Ele sorriu e acenou com a cabea.
- Gordon! - gritou Louise. - Gordon!
- O que ?
- A nova garota chegou!
- Isso  timo. Mas agora tenho de vigiar estas crianas, que nunca cuidam da grama direito.
Ele me pareceu um tanto rabugento.
- Gordon se orgulha da maneira como mantemos a propriedade - explicou Louise. - Todos ajudam, mas voc vai ver como  divertido. Vamos entrar, por favor.
Ela ps a mo em meu ombro, conduziu-me pelos degraus at a porta da frente. Havia um vestbulo pequeno, depois uma sala grande, com mveis antigos.
- A Lakewood foi uma das mais procuradas pousadas para turistas em seu tempo - comentou ela para Sanford.
Louise continuou a falar, explicando como o fluxo de turistas diminura. Por isso, ela e o marido Gordon decidiram usar a propriedade como um lar provisrio para 
crianas. No tinham filhos, "mas sempre considerei que todos aqui so meus filhos".
Subimos e paramos na porta de um quarto que tinha a metade do tamanho do meu quarto na casa dos Delorices.
- Acabei de limp-lo - informou Louise. - As meninas partilham o banheiro no final do corredor.
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Cooperao  a palavra-chave aqui. Prepara as crianas para a vida.
Sanford tornou a sorrir. Largou minhas malas no cho.
- Agora darei tempo para vocs dois se despedirem - acrescentou Louise, olhando para Sanford e para mim. - Depois, Janet, eu lhe mostrarei o resto da casa.
- Obrigado - murmurou Sanford.
Ela se retirou. Sentei no que seria minha cama. Ele ficou de p, em silncio, por um momento.
- Ah, quero que voc fique com algum dinheiro. Sanford tirou uma carteira do bolso, pegou vrias notas de grande valor. Comecei a sacudir a cabea.
- No, por favor, Janet. Fique com isso e esconda. Na primeira oportunidade que tiver, deposite no banco. Ter algum dinheiro seu vai lhe proporcionar uma certa independncia. 
- Ele ps o dinheiro na minha mo. - Sei que no ficar muito tempo aqui, Janet.  uma garota linda e talentosa.
Eu no sabia o que dizer a ele.
- Talvez eu venha visit-la de vez em quando. Gostaria disso?
Sacudi a cabea, o que o deixou surpreso.
- No gostaria? Por que no?
- Quando as pessoas envelhecem, perdem a memria. Assim, no se lembram do que no podem mais ter.
Sanford sorriu.
- Quem lhe disse isso? Dei de ombros.
- Ningum. Pensei isso um dia.
- Provavelmente est certa.  a natureza. Mas espero que no me esquea, Janet. Eu no vou esquec-la.
- Celine j me esqueceu.
- Ela est apenas confusa, absorvida em suas lembranas pessoais.
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- Ento  melhor que ela esquea.
Sanford parecia prestes a chorar. Antes, ele apenas me beijara na testa e segurara minha mo para atravessar a rua. Agora se ajoelhou e me abraou, apertando-me 
com fora por um longo momento.
- Eu queria uma filha como voc, Janet, mais do que qualquer outra coisa.
Ele me beijou no rosto e levantou-se depressa, virou-se e saiu do quarto. Escutei seus passos descendo a escada.
Por algum tempo, fiquei sentada ali, olhando para o cho. Depois, fui at a janela e olhei. Avistei o carro de Sanford desaparecer na rua. Comecei a chorar, a primeira 
lgrima explodindo numa gota quente, que escorreu pela face. Foi nesse instante que uma linda borboleta pousou no peitoril da janela. Manteve-se ali apenas por um 
instante, depois alou voo para o vento. Contemplei-a flutuar para longe, e pensei que algum dia eu faria a mesma coisa.
Data de concluso da leitura: 16 de junho de 2008.
